“Boys”, novo clipe da Charli XCX, oferece uma boa reflexão sobre objetificação masculina

29. julho 2017 POP 0
“Boys”, novo clipe da Charli XCX, oferece uma boa reflexão sobre objetificação masculina

Durante a semana, Charli XCX lançou o single “Boys”, canção sobre uma obsessão por garotos. Ela quer todos eles: o cara para transar numa sexta à noite, aquele que vai acordá-la num domingo de manhã e aquele que vai vê-la depois do trabalho.

Alguém pode pensar que, em tempos de empoderamento feminino, talvez a música seja um passo para trás. Porém, o clipe que acompanha a faixa, de maneira divertida, vira os papéis de gênero de cabeça para baixo, e oferece uma boa reflexão sobre objetificação masculina.

O vídeo é cheio de caras famosos: Joe Jonas, Diplo, Charlie Puth, Cameron Dallas, G-Eazy, Joey Bada$$, Mark Ronson, Wiz Khalifa,Ty Dolla $ign, Riz Ahmed, Tom Daley e mais um monte de celebridades que o Buzzfeed listou aqui. Todos eles aparecem fazendo caras e bocas e copiando atitudes que a gente só vê mulheres fazendo em clipes, especialmente de artistas masculinos. 

Eles lambem os lábios, fazem caras sensuais, ficam molhados, fazem guerra de travesseiros, ficam sem camiseta e outras coisas. São atitudes que nos fazem rir, mas é exatamente porque nos fazem rir que precisamos pensar: por que um homem fazendo isso é algo bobo e quando é uma mulher nós mal nos importamos? Naturalizamos tanto assim o corpo seminu das mulheres?

Segundo a própria Charli XCX, que dirigiu o clipe em parceria com Sarah McColgan, seu objetivo era mesmo falar sobre essa desigualdade de gênero.

“Basicamente, eles estão fazendo as coisas sensuais que meninas geralmente fazem em vídeos”, contou a cantora ao BBC Radio 1. “Eu queria fazer esse vídeo. Eu o dirigi e não estou nele. Eu queria virar o olhar masculino de cabeça para baixo e fazer os rapazes fazerem as coisas sensuais”.

Ao afirmar isso, é fácil alguém pensar se a objetificação masculina seria mesmo o caminho para a igualdade de gênero. Isto é: não deveríamos incentivar para que mulheres e homens não ficassem nus ou mostrando seus corpos em clipes, séries e filmes?

Parece um ponto válido. No ano passado, Kit Harrington, o Jon Snow de “Game of Thrones”, reclamou da forma como é reduzido a apenas um rosto bonito, tal qual as mulheres são sempre tratadas. Embora ele tenha considerado isso como uma forma de “machismo contra os homens”, o que ele quis dizer era objetificação masculina. E vale dizer, ela não é nem um pouco igual à objetificação feminina.

Não dá para comparar um com o outro, especialmente porque a imensa maioria de casos envolvendo objetificação sexual de corpos acontece com as mulheres. E, muitas vezes, elas sequer têm direito a ter um rosto, como podemos ver analisando apenas pôsteres de filmes.

O site De Oito trouxe até uma lista, feita por Bem Heldman, que ajuda a perceber como a objetificação masculina é diferente da feminina. Enquanto as mulheres são posicionadas como meras coisas, ou objetos mesmo, cujo valor está todo atrelado ao sexo, o mesmo não acontece com os homens, que são tratados de maneira muito mais leve. E a questão traz consequências reais às vidas das mulheres.

“Mulheres objetificadas na mídia são um retrato exato do que a sociedade machista e misógina entende por mulher ideal. Tem um motivo, afinal, por que 96% das imagens sexualmente objetificadas são de mulheres”, escreveu Lara Vascouto no Nó De Oito. “A objetificação feminina (e a consequente desumanização da mulher) faz parte do modus operandi da misoginia, e é em grande parte o que motiva as diversas violências que sofremos, desde assédio de rua, até estupro coletivo, violência obstétrica e feminicídio”.

Ou seja, enquanto a objetificação feminina está ligada à desumanização da mulher, a objetificação masculina é muito menos perigosa – talvez até vista como “legal” para alguns. É curioso como um clipe de música pop pode nos ajudar a pensar em questões que talvez não refletíssemos de outra maneira.

E ainda há quem não acredite no poder da cultura pop em formar conversas, né?


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