Como “Bohemian Rhapsody” falha com a representação LGBT

08. novembro 2018 Cinema 0
Como “Bohemian Rhapsody” falha com a representação LGBT

Quando o primeiro trailer de “Bohemian Rhapsody” foi lançado em maio deste ano, parecia não haver nenhum indicativo de que o filme abordaria os relacionamentos de Freddie Mercury com homens, tampouco sua luta contra a AIDS, doença que o levou à morte em 1991. A ideia de que uma obra cinematográfica que se debruça sobre a vida do vocalista do Queen, um dos maiores astros da música de todos os tempos, deixaria de lado aspectos tão importantes da vida dele, acendeu uma luz vermelha cabeça de muitos, inclusive do produtor e roteirista Bryan Fuller, que demonstrou sua indignação no Twitter.

“Mais alguém ficou ligeiramente irritado (o suficiente para twittar sobre isso) que o trailer de #BohemianRapsody apresenta a estrela bissexual/gay Freddy Mercury flertando com uma mulher, mas sem nenhuma indicação sobre seu amor por homens?”, escreveu Fuller.

Para outros tantos, era impossível que uma prévia de pouco mais de um minuto e meio fosse capaz de sintetizar um filme de mais de duas horas. Ou seja, era preciso esperar o lançamento do longa-metragem nos cinemas. E na última quinta-feira, 1º, “Bohemian Rhapsody” estreou nas telonas mostrando as relações do icônico músico, interpretado por Rami Malek, com outros homens e seu diagnóstico de AIDS. Porém, diferente da persona chamativa criada por Mercury, a escolha do roteirista Anthony McCarten foi por representar tudo de maneira conservadora, tímida e, por vezes, até ofensiva.

Um pouco de contexto

É verdade que Freddie Mercury nunca assumiu publicamente sua orientação sexual, embora ela ainda seja motivo de muita discussão e interesse. Para Lesley-Ann Jones, autora de uma biografia do artista, é provável que ele fosse bissexual, e não gay como muito se especula.

“Ainda é fascinante para mim que, depois de todos esses anos, a equipe do Queen tenha gasto décadas tentando convencer que Freddie era heterossexual quando vivo, para depois dizerem que ele era homossexual depois de morto”, disse a escritora para o site .them. “Contudo, eles nunca admitiriam a bissexualidade dele, mesmo que tenham abraçado e promovido Mary Austin como ‘seu único e verdadeiro amor’. Todos esses esforços para preservar a memória de Freddie como um homem hétero que amou uma mulher, sua alma gêmea Mary, mas que foi ‘corrompido’ por facções da indústria musical (que nem eram gays mesmo) são ridículos para mim. Ele era claramente bissexual”.

É possível acreditar que a voz de “Somebody to Love” tenha optado por não discutir abertamente sua orientação sexual por vários motivos. A começar que, quando nasceu, em 1946, a homossexualidade ainda era considerada uma doença e que, por ser filho de pais praticantes do zoroastrismo, uma religião persa que não aceita a homossexualidade, é fácil imaginar que o músico tenha crescido sem imagens positivas do que era ser LGBT. Aliás, é dito que Freddie sequer comentava com seus pais sobre sua sexualidade. E a julgar que a LGBTfobia era ainda maior nas décadas de 70 e 80, sendo motivo para enterrar carreiras, é provável que o músico tenha escolhido não abrir sobre esse aspecto da sua vida, a fim de garantir o seu ganha pão e dos seus colegas de banda.

Porém, isso nunca impediu Mercury de experimentar, sendo conhecidos seus relacionamentos com mulheres e homens. Dois deles, se destacam: o primeiro, com Mary Austin, com quem namorou e deixou boa parte de sua herança depois da morte, e o segundo com Jim Hutton, homem com quem passou os últimos anos de sua vida. Houve também relações curtas com outras pessoas, especialmente homens, como relatado por Brian May, guitarrista do Queen, em uma entrevista, em que afirmou que “era óbvio que as visitas ao camarim do Freddie começaram a mudar de mulheres para homens”.

Outro objeto de especulação é a música que dá nome ao filme que está em cartaz no cinema: “Bohemian Rhapsody”. Enquanto pesquisava sobre a vida de Mercury, descobri que é possível que a canção tenha sido uma confissão de que ele era queer. Quem levantou essa teoria foi a biógrafa Lesley-Ann Jones, em artigo publicado no site The Wire, onde diz que os versos “mãe, eu matei um homem/coloquei uma arma na sua cabeça/puxei o gatinho, agora ele está morto” referem-se ao heterossexual que ele matou para poder ser quem ele realmente era. Essa versão, no entanto, é contestada por Brian May, que afirmou para a BBC que “ninguém sabe” o real significado da música, já que “Freddie nunca conversou com ninguém a respeito, pelo menos ao meu conhecimento”.

Assim, é difícil precisar a orientação sexual de Freddie, que disse a Mary que ele era bissexual (a qual teria respondido que ele era apenas gay), mas nunca definiu publicamente sua orientação sexual, e insistia em manter sua vida privada. O diagnóstico de AIDS, por exemplo, só foi divulgado em 1991, um dia antes da morte dele.

O filme

De muitas maneiras, a obra dirigida por Bryan Singer e Dexter Fletcher, e roteirizada por Anthony McCarten, parece não saber como abordar a vida afetiva e sexual de Freddie Mercury, e acaba falhando na representação LGBT e da vida do músico.

O que falta em “Bohemian Rhapsody” é nuance e ousadia ao trabalhar a sexualidade de Freddie Mercury. Nuance porque tanto roteiro quanto direção preferem tratar o tema de maneira ‘engessada’, optando por categorizar o músico como sendo homossexual (quando o artista diz a Mercury que pode ser bissexual a Mary Austin, ela diz que ele é, na verdade, gay), impedindo que haja uma fluidez na forma como ele se identifica. Dessa maneira, o filme sugere que o rockstar só podia ser uma coisa (hétero) ou outra (gay), quando há uma complexidade muito maior, que poderia ter sido explorada. E isso contribui ao estigma de que a bissexualidade não é uma orientação sexual legítima, mas algo passageiro ou irreal.

E quando falo que falta ousadia na produção, é justamente porque, Mercury era conhecido por desafiar limites e padrões. É só reparar, por exemplo, nas roupas utilizadas por ele em seus shows. Se era impossível ser um artista queer livre naquela época, ao menos em cima do palco ele podia brincar e experimentar, transitando entre figurinos coloridos, justos, brilhantes e espalhafatosos e vestimentas mais ‘comportadas’, como um look básico de jeans, tênis e uma regata branca, igual ao utilizado na icônica apresentação do concerto Live Aid, concerto realizado em 1985.

E embora os figurinos do filme sejam iguais aos da vida real (ainda que que não ganhem tanto espaço para se destacar na telona), quando o foco é a vida afetiva e sexual do cantor, “Bohemian Rhapsody” opta pelo conservadorismo. Não há nenhuma cena de sexo no filme, por exemplo. O mais perto de algo sexual é uma cena doce e divertida, na qual Freddie e Mary Austin estão seminus em uma sala e ele pede a mão dela em casamento, sendo interrompido pela entrada repentina dos colegas de banda no local. Mas fora esse momento, não há nada além de olhares e uma perigosa associação a homossexualidade à malícia e à autodestruição, pois logo que o músico começa a se envolver com outros homens, é quando sua carreira e vida começam a despencar.

O roteiro foca na dor que Freddie encontra depois de várias noites de sexo casual com outros homens, e nunca no prazer, o que reforça uma ideia ultrapassada de que gays seriam ‘promíscuos’ e que há uma ‘condenação’ por esse ‘estilo de vida’. Isso não é nenhum pouco positivo. E indo além, o grande vilão da obra é um homem gay, Paul Prenter (Allen Leech), que manipula Mercury e o faz assinar um contrato solo com uma gravadora e o isola das pessoas que ele ama. E diga-se de passagem: a relação entre os dois nunca é clara. Não se sabe a natureza do relacionamento entre os dois, mas fica implícito de que, talvez, eles teriam um caso. Na vida real, o verdadeiro Paul Prenter trabalhou como empresário do vocalista, e depois de ter sido demitido, tirou o músico ‘do armário’ ao revelar ao jornal The Sun que Freddie era gay.

Por fim, nem a relação de Mercury com Jim Hutton (Aaron McCusker) é mostrada de maneira positiva. Jim é o último a sair na festa que o músico dá em sua mansão. Quando Freddie o vê, pega na bunda dele, o que faz com que Jim responda com raiva. Logo aí, vemos que “Bohemian Rhapsody” não sabe como representar de maneira saudável o desejo entre homens. Em seguida, depois de uma conversa, o homem pede ao rockstar para que o procure depois de aprender a gostar de si mesmo; o que o cantor faz tempos depois. Mas, o relacionamento dos dois, que durou por seis anos, até a morte de Freddie Mercury, é mostrado rapidamente, sem muitos beijos, carícias e toques.

Se Freddie Mercury era gay ou bissexual, pouco importa agora (Jim Hutton acreditava que seu parceiro era gay e recorda que o primeiro encontro deles foi bem diferente). A falta de tato ao abordar a sexualidade do músico no filme é muito problemática. Ao final, mesmo que o longa-metragem emocione, ele não dá conta de representar a complexidade e a multiplicidade do vocalista do Queen. E Freddie Mercury merecia muito mais do que isso.

* esse artigo foi corrigido para esclarecer uma conversa que Mary Austin e Freddie Mercury tiveram sobre a orientação sexual dele.

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