“Big Little Lies” oferece uma representação autêntica de violência doméstica

“Big Little Lies” oferece uma representação autêntica de violência doméstica

“Big Little Lies” possui uma história instigante e conta com as atuações brilhantes de suas atrizes. Porém, talvez nenhuma seja tão primorosa quanto a de Nicole Kidman, que interpreta Celeste Wright, uma advogada que abandonou a carreira para cuidar de seus filhos gêmeos. A personagem possui uma vida invejada por todos na cidade de Monterey, na Califórnia, onde vive com seu marido Perry (Alexander Skarsgård) em uma luxuosa mansão.

Os dois são bonitos, bem-sucedidos e sempre parecem estar loucamente apaixonados na frente de todos. Contudo, as aparências enganam: se para quem está fora do relacionamento tudo parece um paraíso, do lado de dentro a realidade é bem diferente. Celeste vive um inferno na mão marido, o qual bate e abusa sexualmente dela.

A partir daí, o seriado traz uma importante mensagem de que a violência doméstica pode acontecer com qualquer mulher e em qualquer relacionamento, por mais ‘perfeito’ que ele pareça.

Perry é muito violento com sua esposa, puxando-a pelo cabelo, estrangulando-a, jogando os brinquedos dos filhos nela, empurrando-a e desferindo socos. É um cenário assustador, que faria qualquer pessoa pular fora. Mas Celeste fica. E fica por diversos motivos, que ilustram bem a complexidade de viver um relacionamento abusivo.

Primeiramente, ela pensa na família e no sofrimento que a separação do marido causaria nos seus filhos pequenos, os quais amam os pai. E isso leva a um segundo ponto: Perry não é um homem ruim o tempo todo. Ele demonstra preocupação com as crianças e a educação delas, além de ser muito afetuoso com sua mulher quando não é agressivo. Isso leva Celeste a crer que o comportamento violento dele pode passar. Contudo, ao mesmo tempo, isso permite que o ciclo de brutalidade nunca termine.

Não só isso, os ataques sempre terminam em sexo. E isso torna tudo muito confuso para quem está assistindo, pois é possível imaginar que, de alguma maneira, ela estaria tendo prazer daquela circunstância. Na verdade, ao longo dos episódios, entendemos que o que Celeste faz é parar de resistir, pois o marido pode ficar ainda mais violento.

Mas isso não quer dizer que a personagem de Nicole Kidman aceite tudo calada. Ela bate de volta, discute e diz que vai deixá-lo, caso ele encoste nela de novo. Porém, isso não é o que acontece, pois Perry sempre se arrepende, joga-se aos pés da esposa e compra presentes a ela após as agressões, como se fosse uma tentativa de demonstrar que vai mudar.

É ele quem sugere que os dois procurem terapia de casal. E é no consultório que ambos conversam sobre a relação, mas sem entrar na questão do abuso. E é lá que Perry admite que tem medo de perder a esposa, o que torna tudo mais claro: ele quer ter poder sobre ela, por isso bate, mina sua auto-confiança e busca formas de isolá-la de suas amigas. Ele quer controlá-la, uma característica que é faz parte de qualquer relacionamento abusivo.

A terapeuta, contudo, entende pelos olhares de Celeste e as meias-verdades que a mulher corre perigo. Quando ela comparece a uma sessão sem o marido, é que entende que quanto mais tempo ficar com o marido, mais risco ela corre de sofrer alguma lesão mais séria e até vir a morrer.

O relacionamento tóxico do casal é uma representação autêntica do que é viver em um relacionamento abusivo, uma situação que ainda é muito comum para diversas mulheres. Segundo um levantamento da ONG Action Aid, a violência doméstica é a causa da morte de cinco mulheres por hora no mundo todo. Somente no Brasil, em 2011, o SUS atendeu mais de 70 mil mulheres vítimas de violência, sendo que quase 72% dos casos ocorreram dentro de suas casas.

Celeste, enfim, decide partir, mas só depois de descobrir que um de seus filhos vê o que o pai faz com a mãe, e acaba repetindo o comportamento com suas colegas de escola. Contudo, a advogada conta com uma independência financeira que muitas mulheres não têm. Muitas acabam ficando por não ver alternativas ou formas de viver sem depender do marido. Muitas sequer abrem para pessoas próximas o que está acontecendo, seja por medo ou por vergonha (assim como a personagem de Nicole Kidman).

É preciso ter em mente que nenhuma mulher merece passar por nenhum tipo de violência. Há meios de romper com o ciclo de violência, basta procurar ajuda.

Para fazer uma denúncia, vá a uma delegacia para abrir um boletim de ocorrência, ou disque para a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), serviço da Secretaria de Políticas para as Mulheres.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *