Todas as referências culturais negras que Beyoncé apresentou em seu show no Coachella

17. Abril 2018 POP 0
Todas as referências culturais negras que Beyoncé apresentou em seu show no Coachella

Já se passaram dois dias desde o show histórico que Beyoncé realizou no Coachella, e eu ainda não consegui superá-lo. Na verdade, acho que ninguém conseguiu superá-lo, tamanha a grandeza e espetáculo que Queen Bey apresentou em quase duas horas que esteve no palco.

Mas a cantora levou ao festival e ao mundo mais do que apenas entretenimento: ela deu uma aula ao público majoritariamente branco do evento, e às pessoas que a acompanhavam pela internet, de cultura negra. Eu admito que fiquei perdido e não entendi o que Beyoncé levou para o Coachella (agora, Beychella), mas a intenção da artista era forçar o público branco a pesquisar mais sobre o assunto.

Tina Knowles, mãe de Beyoncé, contou pelo Instagram que era esse o desejo de sua filha antes do show.

“Eu tinha medo que a audiência predominantemente branca do evento ficasse confusa com toda a cultura negra e das faculdades negras, porque era possível que eles não entendessem”, escreveu Tina. “Sua resposta corajosa me fez sentir um pouco egoísta e envergonhada. Ela disse: ‘eu trabalhei duro para chegar a esse ponto, onde eu tenho uma voz. E nessa altura da minha vida e carreira, eu tenho a responsabilidade de fazer o que é melhor para o mundo e não o que é popular’. Ela disse que esperava que os jovens, após o show, pesquisassem sobre essa cultura e veriam o quão legal ela é, e que jovens negros e brancos a ouviriam. Ascenda todas as vozes e cante e veja o quão brilhantes são as palavras para nós e como elas podem construir pontes. Ela também espera que isso encoraje jovens a entrar nas incríveis universidades e faculdades negras. Eu estava errada”.

Saw this written above photo and commentary by: Alisa Adamson Profit and thought i would share it with you https://apple.news/AmQP7CFzMQOS7gDDGvfigMw ❤️❤️I told Beyonce that i was afraid that the predominately white audience at Coachella would be confused by all of the black culture and Black college culture because it was something that they might not get. Her brave response to me made me feel a-bit selfish and ashamed. She said i have worked very hard to get to the point where i have a true voice and At this point in my life and my career i have a responsibility to do whats best for the world and not what is most popular “ She said that her hope is that after the show young people would research this culture and see how cool it is, and young people black and white would listen to “ LIFT EVERY VOICE AND SING and see how amazing the words are for us all and bridge the gap. She also hopes that it will encourage young kids to enroll in our amazing HIstorically Black Colleges and Universities . I stand corrected ❤️

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Houve bem mais do que coreografia elaborada, vocais impecáveis e participações mais que especiais de Kelly Rowland, Michelle Williams, Jay-Z e Solange. Eis o que nós podemos ter perdido no meio do caminho:

Nefertiti

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A rainha egípcia Nefertiti foi representada por Queen Bey logo no início de sua apresentação, ainda que bem rapidamente. A figura histórica era esposa do faraó Amenhotep IV, o qual realizou mudanças religiosas no Egito ao lado esposa, trocando o culto em vários deuses para apenas um: o deus sol Aton.

Banda

Beyoncé foi acompanhada por uma banda vestida de amarelo e preto (as cores da Beyhive, ou a colmeia de Beyoncé, como é conhecida a fã-base da cantora), cujos músicos, de acordo com o site do canal NBC, vêm de universidades historicamente negras: a Florida Agricultural & Mechanical University, Prairie View A&M University, North Carolina A&T, Tennessee State University e Alabama State University.

Embora Beyoncé nunca tenha frequentado nenhuma dessas instituições, seu pai e ex-empresário, Mathew Knowles, graduou-se na Fisk University, de Nashville, no Tennessee.

Outra curiosidade é que, como sabemos, o pai da voz de “Formation” é do Alabama, e a mãe dela é de Louisiana, enquanto a artista nasceu e cresceu no Texas, lar de duas universidades negras: Texas Southern e a Prairie View A&M.

E em sua apresentação, a cantora introduziu um pouco da cultura dessas chamadas “faculdades e universidades historicamente negras” (em inglês, historically Black colleges and universities), trazendo uma banda marcial, arquibancada e ‘calouros’ dispostos a entrar na fraternidade “BΔK”.

BΔK

Durante todo o show, BΔK esteve estampado em seus figurinos e nas roupas de seus dançarinos e da banda. Muita gente (e aqui eu me incluo), tentaram decifrar o que significaria BΔK, confundindo a quarta letra do alfabeto grego, delta, (vale destacar a “coincidência”: quatro é o número preferido de Yoncé) com a letra A.

Porém, BΔK significa Beyoncé Delta Knowles, uma sororidade criada pela cantora. Em determinado momento, a artista pediu para que um grupo de dançarinos a fizessem rir, a fim de que pudessem se juntar à instituição. O gesto foi uma homenagem ao filme “Lute pela Coisa Certa”, do diretor negro Spike Lee, e cuja história se passa em uma universidade negra de Atlanta.

O hino nacional negro

Logo depois de “Crazy in Love” e “Freedom”, a cantora soltou sua poderosa voz em “Lift Every Voice and Sing”, de James Weldon Johnson, e única música do setlist que não era do seu repertório.

A escolha pela canção também impressiona: ela é considerada nos Estados Unidos como o hino nacional negro, transformada em música pelo irmão de Johnson, John Rosamond, durante os anos 1900. A Associação pelo Avanço das Pessoas Negras (NAACP, na sigla em inglês), que luta pelos direitos civis de minorias étnicas nos EUA, adotou “Lift Every Voice and Sing” como sua música oficial em 1921.

Malcom X

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Uma das figuras de grande importância na luta pelos direitos civis americanos, Malcom X também esteve presente no show de Beyoncé, com um pedaço de seu famoso discurso “Quem ensinou você a se odiar?”, cujas palavras também estão no filme “Lemonade”, de Queen Bey.

O discurso foi realizado em 1962 e fala sobre a situação da mulher negra nos Estados Unidos: “A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”

Músicos negros

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Beyoncé aproveitou o seu set de 24 músicas para homenagear diversos artistas e ativistas negros. Durante toda sua performance, é possível ouvir Nina Simone cantando “Lilac Wine” (vale dizer: também no sábado, o nome de Nina foi adicionado ao Rock and Roll Hall of Fame), Kendrick Lamar (“Humble”), Jay-Z (“Family Feud”), The Clark Sisters (“Ha Ya Eternal Life”), C-Murder “Down for My Niggaz”, Messy Mya (“estou de volta por demanda popular”), Master P (“Bout It, Bout It”), Fast Life Yungstaz (“Swag Surfin”), Drake (“Headlines”), O.T. Genasis (“Everybody Mad”), Outkast (“SpottieOttieDopaliscious”), Nicki Minaj (“Feeling Myself”), Destiny’s Child (“Lose my Breath”, “Say my Name” e “Soldier”), Fela Kuti (“Zombie”) e outros.

Esses são músicos de diferentes gerações e estilos, o que tornou a apresentação ainda mais memorável.

Feminismo negro

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O feminismo também participou da apresentação de Beyoncé, que utilizou o famoso trecho do discurso “Todos devemos ser feministas”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. As palavras também foram adicionadas à música “Flawless”, lançada em 2013.

“Nós dizemos às meninas para se encolherem, para que se diminuam. Dizemos a elas: ‘você pode ter ambição, mas não muito. Você deve desejar ter sucesso, mas não muito. Do contrário, você ameaçará o homem’. Por eu ser mulher, espera-se que eu queira me casar. Espera-se que eu faça escolhas tendo sempre em mente que o casamento é a coisa mais importante. O casamento pode ser uma fonte de alegria e apoio mútuo, mas por que ensinamos meninas a querer casar e não ensinamos aos meninos o mesmo? Nós criamos meninas para se enxergarem como competidoras. Não por empregos ou realizações, o que eu acho que seria uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Ensinamos meninas que elas não podem ser sexuais como os meninos são. Feminista: a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica dos sexos”.

E como não falar do grande feito da voz de “Run the World (Girls)”? Com sua apresentação no Coachella, ela se tornou a primeira mulher negra a ser atração principal no festival, desde que ele foi criado em 1999. O fato foi destacado pela própria, que emendou um: “não é que eu sou aquela mulher?”.

O emblema de seu figurino

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Em uma de suas trocas de figurino, Beyoncé voltou ao palco com um collant preto, com um emblema que trazia quatro imagens diferentes: a rainha Nefertiti, uma pantera negra (possivelmente uma referência ao movimento dos Panteras Negras, que lutou pelos direitos civis nos Estados Unidos), um punho negro cerrado e uma abelha, referência clara à sua fã-base, a Beyhive.

Há tempos, Queen Bey é referência no cenário musical. Desde “Lemonade”, seu trabalho mais arriscado e ousado até hoje, ela vem abraçando a identidade negra e forçando uma conversa necessária sobre ativismo, arte, gênero e raça. Com sua apresentação no Coachella, ela não só elevou, mais uma vez, o que é fazer uma performance de peso, mas também nos fez refletir e reconhecer e celebrar a cultura negra.

Vida longa à rainha!