Como a história da “Batwoman” nos faz refletir sobre a representação LGBT nos quadrinhos

22. novembro 2018 Literatura 0
Como a história da “Batwoman” nos faz refletir sobre a representação LGBT nos quadrinhos

A história de Batwoman não é fácil. E não estou falando somente sobre a história dela em Gotham. Aliás, o texto nem focará nisso. Vamos focar é na história por trás dos desenhos, no contexto político que influenciou a criação dos mesmos e na representação LGBT ao longo dos anos.

CONTANDO UMA HISTORINHA — Tudo começou em 1954, quando foi publicado o livro “The Seduction of the Innocent” (“A Sedução dos Inocentes”, em tradução livre), de Fredric Wertham. Em seu emblemático estudo sobre a má influência dos quadrinhos no comportamento de jovens leitores, o livro coloca a homossexualidade como um dos perigos a ser combatido (LIMA, 2016, p. 6). Dentre outras coisas, o livro fala que o Batman é o par romântico de Robin e faz uma critica a isso. A quantidade enorme de pequenos vestígios densamente usados por entusiastas em busca da derradeira comprovação da homoafetividade de Batman e Robin permeiam o imaginário popular, como aconteceu com Wertham, a ponto de ele escrever sobre isso (LIMA, 2016, p. 8). O livro resultou no Comic Code Authority, ou o código dos quadrinhos. Assim, a liberdade de expressão foi cassada, o que resultou no surgimento da Batwoman, alter ego de Kate Kane, que decidiu combater o crime para ficar ao lado do Batman, seu par romântico.

Espero que esteja óbvio, para quem está lendo o texto, que isso é machismo. Mas essa história de machismo não para por aí. Na época, os acessórios de combate reforçavam estereótipos: eram batons laser, pó que fazia uma cortina de fumaça etc, tudo guardado em uma bolsa feminina. Além disso tudo, as habilidades de combate dela eram muito inferiores em relação aos dos homens. E isso sem falar que seus discursos reforçavam o estereótipo feminino, sendo que o casamento era sempre seu desejo final.

As aparições significativas de Kate Kane só duraram até 1964. Depois disso, ela foi substituída por Batgirl.

Ela até voltou em 1979, mas com aparições fracas e sem importância para um resumo.

A Batwoman só volta para valer mesmo em 2006. Dessa vez, ela volta como uma boa representatividade de uma mulher lésbica. Ela é empoderada, não tendo o mínimo interesse pelo Batman, mas querendo fazer justiça. Ela sofre LGBTfobia, mas sai do armário e nem por isso deixa de ter relacionamento com outras mulheres. E sua sexualidade não a define, é apenas parte dela.

Entretanto, parece que uma trupe de conservadores não gostou nada da mudança. Comentários do tipo “estragaram minha personagem” (quero lembrar que a homossexualidade não é um defeito. É apenas um tipo de sexualidade que precisa ser respeitada) ou, então, “o roteiro não está bom”.

No que diz respeito à vida amorosa de Kate, temos ela, no início da trama, namorando Renée Montoye. As duas se separam e, logo depois, Kane passa a namorar Maggie Sawier. E é com Maggie que, nas revistinhas solo de Batwoman, no ano de 2013, que Batwoman pede Sawier em casamento. Ao menos, pediria.

Se um casal lésbico namorando já incomoda uma corja conservadora, imagine um casamento. E imagine também que parte dessa corja trabalhava na DC Comics em 2013.

A revistinha foi censurada. Na época era editor-chefe da DC, Dan Didio, pediu várias alterações no roteiro, inclusive a retirada (do nada) do casamento. J.H. Williams III e W. Haden Blackman, que trabalharam duramente na questão da representatividade lésbica de Batwoman, demitiram-se.

Quem substituiu foi Mark Andreyko, quadrinista assumidamente gay. “A escolha não se deu aleatória, na verdade a homossexualidade assumida de Andreyko funciona justamente como elemento pra inocentar qualquer acusação de preconceito contra homossexuais” (LIMA, 2016, p. 15).

Depois disso, sua homossexualidade foi praticamente deixada de lado.

A LIGAÇÃO DISSO TUDO COM O SISTEMA CAPITALISTA

O QUE LEVOU PESSOAS A DIZEREM “ESTRAGARAM A PERSONAGEM? — Segundo Santos & Silva, ao nascermos, é designado um gênero e um desejo sexual a você, dependendo do seu órgão sexual. Então, se você nasceu com uma vagina, você é uma menina e se apaixona só por homens; se você é nasceu com um pênis, é menino e se apaixona só por meninas. Essa é uma regra imposta socialmente, com raizes no capitalismo. Logo, quando você quebra essa regra, de acordo com o pensamento capitalista, você é automaticamente levado à condição de criminoso. Não é a toa que, em muitos países, sexualidades e/ou gêneros diferentes do heterossexual e cis ainda são proibidos por lei. E não é à toa também que, muitas vezes, LGBTs são associados à prostituição, o roubo, o tráfico e tantas outras coisas ruins na nossa sociedade. Por isso, para muitos, ser LGBT é ser doente; enquanto ser cisgênero e heterossexual seria a ‘norma’. Ser LGBT seria um ‘pecado’ contra essa ordem.

Então, para essas pessoas, no caso, sexualidades diferentes das heterossexuais são indignas de respeito, mas dignas de censura. Para eles, a nova Batwoman é doente. É pecadora contra a ordem.

A INFLUÊNCIA DO CAPITALISMO NISSO TUDO

– NOS PRIMEIROS ANOS DE BATWOMAN

Segundo Dantas (2006, p. 46):

Desde o princípio, as mulheres eram representadas de acordo com os paradigmas de beleza importados das divas do cinema. A mulher adulta dos atributos compatíveis com o feminino: beleza física, brilho e glamour, numa imagem que aludia à alcunha do belo sexo.

Mas isso não explica tudo. E uma das coisas que não explica era o antigo fetiche de Batwoman para se casar com o Batman. Em relação a isso:

“A representação do corpo da mulher nas HQs é marcada pelo fetiche. No sentido de que os desenhos tentavam ressignificar uma forma transcendente de desejo pelo Outro, circunscrevendo-o a um estereótipo fixo e capaz de se repetir quantas vezes necessárias, quanto no de devoção pelo próprio objeto ressignificado.” (DANTAS, 2006, p. 47).

Ainda segundo Dantas, isso tudo serve para que mantenhamos um sistema patriarcal capitalista. É um modelo de fábrica. O homem é o patrão e a mulher, a trabalhadora. E esta, ao se rebelar contra o patrão, garantindo sua autonomia, é uma ameaça a ele. Este é o pensamento de muitos quadrinistas: o empoderamento feminino é uma ameaça.

E mesmo quando essas mulheres se tornavam super-heroínas, saindo, assim, um pouco do sistema patriarcal capitalista, ainda apresentavam problemas: eram mais fracas que os homens (quando poderiam ser iguais ou até mais fortes que os homens), usavam apetrechos femininos e, com o passar do tempo, ficaram cada vez mais hiper-sexualizadas. Como é possível perceber, era o caso de Batwoman.

Primeiro, precisamos entender os primórdios do capitalismo e o que isso tem a ver com a LGBTfobia.

Santos & Silva explicam que, antes do capitalismo, o conceito da palavra “família” não era muito bem definido. Obviamente, cada um tinha uma casa, mas as pessoas iam e vinham nas casas dos outros. Era uma espécie de vizinhança, feliz e saudável. Dentro dos seus limites, tudo era compartilhado, inclusive a educação das crianças, para se ter uma ideia. E nas casas, não havia um padrão de quem morava, como sugere a família tradicional, a partir do capitalismo.

Mas a partir do século XVI, com o surgimento do capitalismo, tudo passou a ser visto como um sistema de produção de mercadorias. E o mesmo foi com a família. Esta passou a ser privada. Uma propriedade do homem, que por sinal, dominava o restante da família, inclusive a mulher. O patriarcado surgiu daí.

E quem não seguia este modelo era vista como pessoa marginalizada. Fora do sistema. Fora da moda, fora da ordem. Na verdade, mais do que isso: o medo das famílias LGBTs abalarem totalmente a ordem “correta” passou a ser cada vez mais evidente.

Segundo Welze-Lang (2001, p. 160):

“O paradigma naturalista da dominação masculina divide homens e mulheres em grupos hierárquicos, dá privilégios aos homens à custa das mulheres. Em relação aos homens tentados, por diferentes razões, de não reproduzir esta divisão (ou, o que é pior, de recusá-la para si próprios) a dominação masculina produz homofobia para que, com ameaças, os homens se calquem sobre os esquemas normais da virilidade”. (WELZE-LANG)

E é por isso que as relações LGBTs são tão mal-vistas pela sociedade: não é uma relação dominante-dominada. É, no caso de Batwoman, uma relação entre duas dominadas. Sendo assim, as violências são amenizadas. O machismo entre o casal é amenizado.

Vamos lembrar que, dentre as partes censuradas, havia o casamento de Batwoman. É claro que ele seria censurado. A máxima representação, dessa recusa à ‘norma’ é o casamento.

Além disso, ainda falando sobre o casamento, Miskolsi (2007, p. 104-105) escreve:

“Sobretudo, a possibilidade do casamento aponta para uma normalização das relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo, pois o reconhecimento estatal levaria a uma delimitação das relações aceitáveis como sendo apenas aquelas que pudessem resultar em ‘casamento’.” (MISKOLSI)

As abordagens dessas figuras ficcionais nos identificam as identidades de gênero e as performances de gênero em transformações em nossa sociedade. Essas duas vivências humanas são balizas temporais culturais das sexualidades, que permanecem ainda excluídas de uma elegida normalidade. Como personificações dos ideais de moralidade, conduta e afetividade presentes no imaginário social hegemônico do ocidente, são, portanto, alvos positivos e negativos de controvérsia de identidade com a orientação sexual.

O interesse maior é o sensacionalismo que tais exposições causam, muito diferente de uma conduta de respeito à diversidade sexual. Torna-se jocoso e caricato ver ícones tidos por exemplos de masculinidade, com as performances que devem exercer, envolvidos em imagens e discursos que fragilizam essa condição sexual heteronormativa. Entretanto, não é uma promoção de suas condições sexuais outrora excluídas, mas uma dupla ridicularização tanto dos indivíduos ficcionais idealizados, quanto da própria condição homossexual.

As condutas da Indústria Cultural do entretenimento nos fornecem sintomas palpáveis de nossa realidade social. Os super-heróis, idealizações a serem enaltecidas, ao assumirem liberdades identitárias que entram em conflitos com convenções de normalidade socialmente construídas produzem possibilidades de ricos diálogos sobre as questões envolvidas.

FONTES:

FANTAS, Daiany Ferreira. Sexo, mentiras e HQ: representação e auto-representação das mulheres nos quadrinhos. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco.

LIMA, Savio Queiroz. Batwoman e a questão das representações da homoafetividade em quadrinhos de super-heróis. 17. ed. Nova Iguaçu: UFRRJ. 2016.

MISKOLCI, Richard. Pânicos morais e controle social – reflexões sobre o casamento gay. In: Cadernos Pagu, n. 28, Campinas: Jun/Jul 2007. p. 101-128. Disponível em: <http://www.academia.edu/288793/Panicos_Morais_E_Controle_Social>. Acesso em: 28/10/13. p. 104-105.

SANTOS, Andressa Regina Bissolotti dos; SILVA, Henrique Kramer da Cruz e. Identidade LGBT e capitalismo: a construção histórica da homofobia e as estratégias jurídicas para seu combate. 15. ed. Paraná: UFPR. 2013.

WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, Florianópolis, v.09, n. 2, p.460-482, jul/dez 2001. p. 460