O caso envolvendo Aziz Ansari não foi só um “date ruim”

01. Fevereiro 2018 Famosos 0
O caso envolvendo Aziz Ansari não foi só um “date ruim”

Assim que a denúncia de que Aziz Ansari tinha assediado uma mulher saiu, muitos se negaram a acreditar na acusação. Grace, cuja verdadeira identidade foi mantida em segredo, recontou o encontro que teve com o ator de “Master of None” em um texto publicado no site babe.net, afirmando que a experiência foi “a pior noite” de sua vida.

Grace, uma fotógrafa, conheceu Aziz em uma festa depois da entrega do Emmy Awards, no ano passado. Eles trocaram telefones e mensagens antes de se encontrarem, dias depois, em um restaurante. Em seguida, ambos foram para o apartamento do ator, onde tentou coagi-la a fazer sexo com ele.

Para muitos, o que aconteceu entre os dois não se passou de um “date ruim”, uma vez que Grace fez sexo oral em Aziz, além de não ter externado que não queria transar com o artista, apenas deu “pistas verbais e físicas” de que não queria seguir adiante.

“A maior parte do meu desconforto foi expressada em me afastar e resmungar. Eu sei que minha mão parou de se mover em alguns momentos. Eu parei de mover meus lábios e fiquei fria. Eu sei que eu estava dando dicas físicas de que eu não estava interessada. Não sei se ele percebeu isso ou se apenas ignorou”, disse a fotógrafa.

Com a repercussão do caso, Aziz emitiu um comunicado, afirmando que tinha acreditado que as relações sexuais haviam sido “consensuais”.

“Nós saímos para jantar e depois nos envolvemos em atividade sexual, que por todas as indicações eram completamente consensuais. No dia seguinte, eu recebi uma mensagem dela dizendo que ‘apesar de ter parecido ok’, após ter refletido, ela se sentiu desconfortável. É verdade que tudo pareceu ok para mim, então, quando eu soube que não era o mesmo para ela eu fiquei surpreso e preocupado”, respondeu o ator.

Assim que o artigo foi divulgado pelo babe.net, todo mundo tinha uma opinião sobre a situação. Enquanto algumas publicações correram para dizer que não houve assédio algum e que Grace poderia ter dito “não” ou que poderia ter simplesmente pego suas coisas e saído, outras lembraram da importância do consentimento e de que nem sempre é fácil ou possível dizer “não”, ainda mais para um homem famoso.

Logo que o caso saiu, a reação de muitas pessoas na internet foi de que seria impossível que Aziz Ansari, um feminista declarado, pudesse assediar alguém. Eu reconheço que ainda é difícil para muita gente reconhecer que caras legais também podem ser violentos com mulheres, mesmo que aparentem ser o mais gentil de todos. E Aziz não é – e nem será – o primeiro homem que se aproveita do feminismo para assediar alguém.

Também é fato de que essa situação difere das outras acusações de assédio que vimos na mídia contra Harvey Weinstein, por exemplo. Não há alguém usando seu poder e/ou força para abusar sexualmente de alguém. É por isso que, na interpretação de muitos, tudo não se passou de um cara querendo insistentemente transar, enquanto uma moça não estava afim do mesmo. Porém, alguns pontos precisam ser observados, para não cairmos na armadilha de culpar uma mulher pela violência sofrida, e ignorarmos o papel fundamental do consentimento nas relações sexuais.

Para muitos, Grace poderia ter dito “não”, logo de cara, em vez de dar pistas de que não estava tão envolvida a ponto de querer transar. Nesse ponto, é importante salientar que, nem sempre é fácil para uma mulher negar uma investida sexual. E isso porque, não raro, muitos homens batem, estupram e matam mulheres que dizem “não” para suas tentativas de fazer sexo. Sei que parece difícil de acreditar que Aziz Ansari pudesse fazer qualquer uma dessas coisas, mas como é que ela poderia saber? 

Uma reportagem do El País foi além nesse ponto da falta de negativa para o sexo, destacando que, em situações em que as coisas não saem como planejadas, como foi o que aconteceu com Grace, nosso corpo pode vir a paralisar. 

“A situação descrita por Grace levou a um ambiente ‘de encurralamento, em que temos visto muitas mulheres, várias vezes, e onde é realmente difícil reagir com rapidez e ir embora. No momento em que esse homem se comporta de uma forma que claramente ultrapassa os limites, você entra num estado que a psicologia chama de dissonância cognitiva. Acontece quando você precisa gerenciar dois pensamentos-emoções contraditórios sobre o mesmo fato: ‘Este garoto me parece adorável e por isso vim até aqui, mas está se comportando como um estuprador, o que não faz sentido’”, explicou a psicóloga Violeta Alcocer para a publicação. “O sistema nervoso não costuma resolver essa equação com rapidez. A surpresa (‘por um lado parece um cara mau, por outro sinto que posso estar em perigo’) produz paralisia e embotamento cognitivo – uma maneira que o cérebro tem de ganhar tempo para tentar compreender qual das suas percepções está errada.”

Em outras palavras, a pessoa simplesmente para de responder ou e agir, a fim de evitar algo pior. 

E um ponto que considero muito importante nessa discussão toda, é que ela faz com que os homens repensem a forma como interagem sexualmente com as mulheres. Aziz podia não ter noção que havia ultrapassado os limites, mas isso porque vivemos em uma cultura que força os homens a sentirem que o talvez ou a retração de uma mulher é apenas mais um obstáculo no “jogo da sedução”. Ela não é vista como um ser humano, com suas vontades e desejos, mas um prêmio a ser conquistado. E, para isso, ignora-se as pistas verbais e físicas para que o objetivo seja alcançado.

Pensar que, em algum momento, você pode ter agido como o ator é incômodo. Requer fazer uma análise de si e de suas relações,e confrontar-se com a possível descoberta de que você também pode ter agredido uma mulher, ainda que não tenha tido essa intenção. Mesmo que “todas as indicações” tenham parecido “completamente consensuais”, como foi o que aconteceu com Aziz, que não viu nada de errado na situação, ainda que houvesse.

Grace deu sinais que não queria transar. Seu corpo enrijeceu, ela não demonstrou nenhuma satisfação com o que estava ocorrendo e chegou dizer que queria que as coisas fossem mais devagar. Tudo foi ignorado. Não houve consentimento para que o artista continuasse com seus movimentos, mas isso é algo que muitos homens, infelizmente, não levam em consideração. E, muitas vezes, porque acreditam é preciso convencer uma mulher a fazer sexo. 

É importante repensar o que é consentimento e como ele é fundamental nas relações que construímos com outras pessoas, seja em um sexo casual, namoro e até casamento. O caso de Aziz Ansari não foi só um “date ruim”, mas uma demonstração de que a masculinidade precisa ser discutida e refeita, para que os homens possam levar em conta e respeitar o desejo de suas parceiras. Estamos mudando a cultura de “quem casa, consente”. E estamos mudando para melhor.