Como a mídia vem transformando o suposto suicídio de Avicii em “entretenimento”

Como a mídia vem transformando o suposto suicídio de Avicii em “entretenimento”

Uma das críticas que o seriado “13 Reasons Why” recaiu sobre a glamourização do suicídio da personagem principal, Hannah Baker (Katherine Langford). Na trama, a menina deixa 13 fitas para as pessoas que seriam as “responsáveis” pela sua morte. O último episódio da série da Netflix culmina com uma cena gráfica da garota tirando sua própria vida, o que deixou especialistas e organizações preocupados com a forma que aquelas imagens poderiam afetar pessoas em estado de fragilidade emocional.

O episódio em questão abre com um aviso de que há conteúdo perturbador, mas não é o suficiente para evitar que a produção seja classificada como problemática. Há vários questões a serem consideradas, como mostrar que o suicídio era a única saída para o sofrimento de Hannah, além do conteúdo das imagens, uma vez que elas podem disparar emoções negativas em quem viveu ou está vivenciando momentos difíceis. Em alguns casos, muitas pessoas podem procurar formas de se machucar e até tirar suas próprias vidas – o que é o oposto do objetivo do seriado.

Essa introdução é necessária para exemplificar como o suicídio pode se tornar produto de entretenimento, em vez de um problema de saúde pública que precisa ser encarado, entendido e evitado. Outro exemplo para essa situação é o suposto suicídio do DJ Avicii, que morreu no dia 20 de abril. No dia 26, a família do músico emitiu um comunicado dizendo que ele “lutava com pensamentos sobre significado, vida e felicidade” e que “queria encontrar paz”.

Anteontem (1º), o site TMZ disse ter escutado fontes não identificadas, as quais deram detalhes sobre a suposta maneira escolhida por Avicii para se matar. Em seguida, sites de notícias compartilharam as informações, muitas também colocando na manchete o que teria acontecido. E embora seja papel da mídia informar, a forma como isso vem acontecendo é desumanizadora e cruel, criando sensacionalismo e transformando um assunto sério em um circo para atrair cliques e dinheiro.

Por ser um tema complicado, muitos veículos de imprensa evitam falar sobre suicídio. Porém, deixar de falar sobre um problema não o faz desaparecer: pelo contrário, isso faz com que muitas pessoas sofram em silêncio e não tenham acesso à ajuda e ao tratamento que precisam. A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que, anualmente, 800 mil pessoas tiram suas vidas todos anos. E na faixa etária que vai de 15 a 29 anos, essa já é a quarta maior causa de morte no Brasil. Ou seja, não estamos fazendo o bastante para conscientizar a população.

Contudo, a abordagem sobre suicídio precisa ser feita com cuidado, uma vez que, em vez de evitar novos casos, pode-se acabar criando um efeito contágio. Por isso, quando a mídia destaca logo no título a maneira como Avicii se matou, ela está contribuindo para que outras pessoas com fragilidade emocional façam o mesmo. O próprio Ministério da Saúde desaconselha esse tipo de abordagem, de acordo com uma cartilha feita para auxiliar a imprensa a tratar do assunto.

Afinal, a quem e para quê serve detalhar a forma como o DJ sueco se matou? Não estaríamos incentivando um fetiche bizarro sobre a morte de uma pessoa e até romantizando o ato? Sendo ela celebridade, acredita-se que o público tenha o direito de saber tudo sobre a vida dela. Contudo, antes de ser uma pessoa famosa, o músico é tão humano quanto o restante de nós e tem o mesmo direito à privacidade.

Portanto, essa cobertura fúnebre da mídia sobre o caso não só faz um desserviço para tirar o estigma sobre suicídio, como também o explora de forma sensacionalista para lucrar e “entreter” o público, ao mesmo tempo em que desumaniza uma pessoa.

O suicídio é algo complexo e que não pode e nem deve ser tratado com a superficialidade que vem sendo tratado após a morte de Avicii. E se nós não fazemos parte da solução, estamos fazendo parte do problema.

Caso você esteja precisando de ajuda:

  • o Centro de Valorização à Vida (CVV) realiza atendimentos pelo site e pelo número 188 e 141 (para Bahia, Maranhão, Pará e Paraná);
  • procure o CAPS e Unidades Básicas de Saúde (saúde da família, postos e centros de saúde);
  • em caso de emergência: SAMU 192, UPA, pronto socorro e hospitais.

*Geralmente, eu faço links de onde tiro as informações, mas por se tratar de um tema delicado e que pode fazer mal a algumas pessoas, evitei linkar as notícias e postar imagens.