Ava DuVernay não vai parar, mesmo que Hollywood não queira que ela continue

17. agosto 2016 Famosos 0
Ava DuVernay não vai parar, mesmo que Hollywood não queira que ela continue

Há apenas alguns dias, Ava DuVernay tornou-se a primeira mulher negra a dirigir um filme com um orçamento de 100 milhões de dólares, o aguardado “Um Dobra No Tempo”, que será lançado pela Disney. Não foi, contudo, a primeira vez que a cineasta fez história: ela também foi a primeira diretora negra a ser indicada ao Globo de Ouro e viu seu aclamado “Selma” ser indicado ao prêmio de ‘Melhor Filme’ no Oscar do ano passado.

Prestes a lançar mais uma obra, desta vez na televisão, Ava estampa a capa da edição de setembro da Hollywood Reporter ao lado de Oprah Winfrey, dona do canal OWN, pelo qual seu mais novo trabalho será transmitido.

“Eu deixei claro na indústria [cinematográfica] que queria fazer uma série e fui abordada por algumas pessoas notáveis, com as quais muita gente gostaria de trabalhar, mas quando sua amiga tem um canal, sabe, talvez seja bom ir para lá”, contou a cineasta aos risos, explicando como se deu a parceria para “Queen Sugar”, seriado que estreia em setembro e que narra a história de mãe e filha, ambas negras, e que se mudam para Nova Orleans após herdarem uma fazenda de cana de açúcar. A atração é uma adaptação do livro de Natalie Baszile, escritora negra americana. Todos os episódios foram dirigidos por mulheres e o seriado já foi renovado para uma segunda temporada, antes mesmo de sua estreia.

DuVernay acrescentou que “Queen Sugar” ressoará com o momento atual dos Estados Unidos, que tem sido marcado pelos protestos contra a violência policial contra a população negra, capitaneados pelo movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”, em português). “Você vê uma integração com Black Lives Matter desde o começo, porque é literalmente sobre vidas negras terem significado e importância no cotidiano”, contou. “Com o movimento Black Lives Matter, muito do foco é no protesto e dissidência. Espero desconstruir a noção pública –  das pessoas de fora da comunidade – do que Black Lives Matter significa. É sobre as vidas dos negros importarem, a humanidade é a mesma quando você entra na casa das pessoas”.

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Obviamente, a cineasta não deixou de ser perguntada sobre a situação atual de Hollywood, uma indústria que vem sendo cada vez mais cobrada para apresentar histórias mais diversas. Um estudo deste ano constatou que o cinema americano se parece com um “clube de homens brancos e héteros”, algo que foi percebido pela diretora no ano passado, afirmando que havia um excesso de filmes sob a perspectiva de “um homem branco e heterossexual”, como disse em entrevista ao Huffington Post.

“Quando você conta o trabalho feito por criadores negros e de outras etnias, destacando protagonistas negros e de outras etnias, é uma fração muito muito pequena do que está no ar agora”, disse à Hollywood Reporter. “Dito isso, você vê um aumento desses trabalhos que estão surgindo neste ano, e isso surge em um ano em que já teve mais do que vimos nos últimos tempos. Mas é ridículo dizer ‘mais do que nos últimos tempos’, e isso significa, tipo, 7 atrações (risos). É trágico… A conversa sobre os negros é apenas uma fatia dela; a representação latina é horrível; dos moradores das Ilhas do Pacífico é pior ainda; e dos nativos-americanos é criminosa. É uma vergonha para todos nós e daqueles que detêm o poder e que permitem que isso aconteça. Não está certo, e tudo o que nós, artistas, podemos fazer é continuar a protestar e pedir ao público que se importa com isso para protestar também”.

Hoje, figurando entre os grandes nomes de Hollywood, Ava diz que não mudará sua forma de contar histórias, mesmo que tenha em suas mãos um filme com orçamento de US$ 100 milhões ou um de US$ 50 mil, como foi o caso de seu primeiro longa, “I Will Follow”, lançado em 2010. “Estou ocupando um espaço onde sou capaz de fazer as coisas que eu quero e comecei isso sozinha, trabalhando independentemente sem permissão”, contou. “Mesmo tendo mais colegas, mais dinheiro e mais infraestrutura à minha volta agora, eu tomei a decisão de trabalhar protegendo minha voz ao colaborar com pessoas que cultivam e valorizam isso, e não tentar perder mais tempo batendo em portas que estavam fechadas para mim, suplicando para as pessoas coisas que me colocavam em desvantagem, porque eles as tinham e eu não”.

E agora você se pergunta: há portas fechadas para ela agora, nessa etapa de sua carreira? “Ninguém vai me parar de fazer as coisas que eu quero, eu só preciso encontrar um jeito de fazê-las, que talvez não sejam o caminho fácil para meus colegas que não se parecem e não identificam como eu. Eles têm mais facilidade, um caminho mais fácil, mas isso não significa que eu não consiga fazer o mesmo”.

A entrevista completa está disponível no site da Hollywood Reporter.

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Ava DuVernay e Opra Winfrey com o elenco de “Queen Sugar”: Rutina Wesley, Dawn-Lyen Gardner e Kofi Siriboe