Atriz do seriado ‘Girls’, Jemima Kirke, revela já ter feito um aborto e quer ajudar mulheres a conversarem sobre o assunto

Atriz do seriado ‘Girls’, Jemima Kirke, revela já ter feito um aborto e quer ajudar mulheres a conversarem sobre o assunto

Jemima Kirke é uma britânica, conhecida por seu papel no seriado ‘Girls’, da HBO, onde interpreta a personagem Jessa Johansson, uma viajante do mundo. Ela é uma das principais atrizes da trama e, recentemente, dividiu com outras mulheres – e com o mundo – um capítulo de sua história: a realização de um aborto.

“Meu nome é Jemima Kirke. Moro na cidade de Nova York, sou uma artista e atriz, e sou mãe de duas crianças.
Em 2007, engravidei do meu namorado daquela época. Eu não tinha certeza se eu queria ficar ao lado daquela pessoa para o resto da minha vida. Minha vida não caminhava para cuidar de uma criança feliz e saudável. Eu não achei que seria justo, então eu decidi fazer um aborto. Eu fui para uma clínica, em Providence, Rhode Island, onde eu estudava. Eu não podia contar para a minha mãe que eu estava grávida, e tive que pagar pelo procedimento. Tive que esvaziar toda a minha conta bancária, e peguei dinheiro do meu namorado.

Eu percebi que, se eu não tomasse a anestesia, eu conseguiria pagar por tudo. A anestesia nem era tão mais cara, mas quando você está pegando dinheiro emprestado, não importa quantas centenas de dólares, é muito, e eu não tinha. São esses obstáculos e o estigma que fazem com que essas coisas não sejam completamente indisponíveis. Mas essa é a parte complicada. Nós achamos que temos livre-arbítrio, achamos que podemos fazer o que quisermos, contudo, são essas pequenas coisas que temos que pular para alcançar o que queremos.

Sempre achei que os direitos reprodutivos deveriam ser algo, especialmente para as mulheres, que nós poderíamos falar abertamente. Especialmente entre nós mesmas. E eu ainda vejo isso, vejo vergonha e embaraço ao falar sobre terminar uma gravidez, ficar grávida… Eu ainda vejo isso. E eu sempre fui aberta para falar sobre a minha história e dividi-la principalmente com outras mulheres.

Eu tenho duas filhas. Na verdade, tenho uma enteada, que tem 8 anos, e a minha mais nova, que tem 4 anos. Eu já estou antecipando-as sobre os problemas com autoestima, os problemas com o corpo, toda a bagagem que vem com o fato de você ser mulher. Eu adoraria que, quando ficassem mais velhas, quando estiverem na adolescência ou em seus 20 e alguma coisa, os problemas políticos envolvendo seus corpos não existam mais. Que elas tenham uma coisa a menos para lutar, sabe, com seus corpos. Porque eles sempre existirão, suas próprias críticas e batalhas sempre existirão, mas eu odiaria vê-las ter que lutar por direitos sobre seus corpos”.

O depoimento real e honesto de Jemima Kirke, que optou por não tomar anestesia para baratear os custos do aborto, além de não poder contar à mãe sobre sua situação, misturam-se ao de tantas outras jovens no mundo. O vídeo da atriz faz parte da campanha “Draw The Line“, do Centro de Direitos Reprodutivos dos Estados Unidos (Center of Reproductive Rights’).

Nos Estados Unidos, estima-se que 1 em cada 3 mulheres realizam um aborto, e o direito a ele é concedido em todos os Estados, porém, no final dos anos 80, a Suprema Corte americana permitiu que eles pudessem restringir o aborto, criando leis locais, o que dificulta o acesso ao procedimento em algumas regiões.

No Brasil, o aborto não é legalizado, salvo em casos de estupro, risco de morte para a mãe e caso o feto seja anencefálico. Estima-se que 850 mil mulheres realizem o procedimento no país, mas o número pode ser mais alto, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), podendo passar de um milhão de casos.

Hoje, trava-se uma luta para que o aborto seja legalizado no Brasil. Se a prática fosse permitida, daria oportunidades para mulheres tivessem acesso a um procedimento seguro, e sem o risco de morte em clínicas clandestinas. No país, a maioria das mortes é de mulheres negras e pobres. Vidas que poderiam ser poupadas caso o aborto fosse legal.

O depoimento de Jemima Kirke é importante porque não só encoraja o debate sobre o assunto, como humaniza quem o realiza. Cada uma tem um motivo e que deve(ria) ser respeitado. E o silêncio acerca do tema precisa desaparecer.