Como é ser atriz com mais de 40 anos em Hollywood? Difícil, muito difícil

18. fevereiro 2016 Cinema 1
Como é ser atriz com mais de 40 anos em Hollywood? Difícil, muito difícil

No Globo de Ouro do ano passado, Tina Fey e Amy Poehler brincaram com Patricia Arquette, indicada ao prêmio por “Boyhood”, dizendo: “‘Boyhood’ prova que ainda há ótimos papéis para mulheres com mais de 40 anos, desde que você seja contratada antes dos 40”, em referência ao filme que levou 12 anos para ser feito.

Poderia ser só uma brincadeira, mas a realidade é esta em Hollywood: quanto mais velha a mulher, mais escassos são os papéis. No ano passado, o assunto fez manchetes quando Maggie Gyllenhaal, de 37 anos, revelou ter sido considerada “velha demais” para interpretar a amante de um homem de 55 anos. “No início isso me fez sentir mal, depois fiquei com raiva e no final me fez rir”, ela contou ao The Wrap.

Recentemente, quem mais reclamou do ageísmo (preconceito com pessoas mais velhas) da indústria cinematográfica foi Catherine Zeta-Jones, de 46 anos. Em um webchat para promover seu mais novo filme “Dad’s Army”, a atriz disse que os “chefões de Hollywood acreditam que as pessoas que vão ao cinema não estão interessadas neles [filmes com protagonistas acima de 40 anos].”

De acordo com o Guardian:

“Estou nessa indústria desde os meus 9 anos de idade e ouvi a mesma coisa em partes da minha carreira. De repente, OLÁ, eu estou nos meus 40 anos. E é verdade. Não é que não há ótimas histórias sobre mulheres em seus 40 anos. É que os chefões de Hollywood acreditam que as pessoas que vão ao cinema não se interessam. Eu queria fazer cinema porque eu cresci assistindo a grandes performances por mulheres em seus 40, 70 anos: Anne Bancroft, filmes como ‘Alice Não Mora Mais Aqui’, papéis interessantes para mulheres na melhor idade.”

Recentemente, um estudo do Center for the Study of Women in Television and Film da Universidade Estadual de San Diego analisou o gênero, raça e a idade dos personagens nos 100 maiores filmes lançados em 2015. Embora o número de personagens femininas tenha aumentado 22% quando comparado ao ano de 2014, a maioria delas ainda é branca e muito nova. Entre os 2.500 personagens examinados, mulheres com mais de 40 anos compreendem apenas 20% do total. O percentual é ainda menor quando elas têm mais de 50 anos: somente 9%, enquanto os homens na mesma faixa etária são quase o dobro: 17%.

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Jennifer Lawrence em “Joy: O Nome do Sucesso”

Isso justifica a reclamação sobre a escolha de Jennifer Lawrence para o papel de Joy Mangano em “Joy: O Nome do Sucesso”, do diretor David O. Russell. No filme, a atriz dá vida à inventora do “esfregão milagroso”, a qual tinha mais de 30 anos quando criou o objeto, 10 anos a mais do que a idade atual de Jennifer Lawrence. “[O diretor] David [O. Russell] tem visões. Ele está em seu lindo mundo. Essas questões bobas não importam para ele”, disse a artista sobre as críticas que recebeu pela personagem. “Não é como se eu fosse velha demais para ‘Trapaça’ [outro filme do cineasta em que ela atua]. E eu era muito nova para ‘O Lado Bom da Vida’. É por isso que eu quase o perdi.”

A atriz e o diretor trabalharam juntos em três filmes: “O Lado Bom da Vida”, “Trapaça” e “Joy”, e em todas as produções, Jennifer interpretou papéis de mulheres muito mais velhas do que ela. Obviamente, isso leva a reclamações de atrizes mais velhas, as quais têm dificuldade em encontrar trabalho numa indústria que valoriza mais a aparência do que a capacidade de atuação. E isso não quer dizer que Jennifer Lawrence não seja uma boa atriz, quer dizer apenas que a atriz mais bem paga do mundo não está enfrentando uma escassez de papéis em seus 25 anos.

Anne Hathaway, com seus 33 anos, já sente que vem perdendo papéis para atrizes mais novas. Nem mesmo o Oscar recebido por “Os Miseráveis” tem lhe garantido trabalho. “Eu não posso reclamar, porque eu me beneficiei disso. Quando eu estava no começo dos meus 20 anos, os papéis eram escritos para mulheres em seus 50 anos e eu os conseguia”, ela contou à revista Glamour. “Agora estou no começo dos meus 30 anos e penso: ‘por que aquela atriz de 24 anos conseguiu aquele papel?’ Eu fui aquela mulher de 24 anos uma vez, não posso ficar brava por isso, pois as coisas são como são. Tudo o que eu posso fazer agora é pensar que, felizmente, você deixou, talvez, uma pequena marca e pode contar histórias que lhe interessam e, caso as pessoas assistam a elas, você poderá fazer mais delas.”

Anne Hathaway e Robert De Niro em "O Estagiário"
Anne Hathaway e Robert De Niro em “O Estagiário”

E enquanto as mulheres vão perdendo papéis enquanto envelhecem, homens vão ganhando mais. O mesmo estudo da Universidade Estadual de San Diego concluiu que, em 2015, homens aos 40 anos representaram 30% de todos os personagens nos 100 maiores filmes do ano passado. É como se Hollywood fosse descartando as mulheres que, veja bem, seguem o rumo natural da vida e envelhecem.

Dakota Johnson, estrela de “50 Tons de Cinza”, de 26 anos, não está tendo problemas para conseguir personagens, mas o mesmo não acontece com sua mãe, a também atriz Melanie Griffith, de 58 anos. Com trabalhos na televisão e no cinema, a veterana não tem mais a facilidade da filha para conseguir papéis. “Por que minha mãe não está nos filmes? Ela é uma atriz extraordinária! Por que minha avó [Tippi Hedren] não está nos filmes? Essa indústria é brutal”, reclamou Dakota para a revista Vogue. “Não importa o quão durona você seja, às vezes, há um sentimento de não ser desejada. É absurdo. Sempre que tenho uma pausa, fico insegura de que eu nunca trabalharei de novo. Não sei o que é, mas é algo que acontece comigo, com certeza.”

Foto: Dakota Johnson, Melanie Griffith e Tippi Hendren (Stefanie Keenan/Getty Images, via: The Guardian
Foto: Dakota Johnson, Melanie Griffith e Tippi Hedren (Stefanie Keenan/Getty Images, via: The Guardian

Some Dakota Johnson à crescente lista de atrizes que vêm reclamando da escassez de projetos para mulheres mais velhas: Liv Tyler, de 38 anos, reclamou do machismo e do ageísmo de Hollywood no ano passado [“Na minha idade, geralmente você é a esposa ou a namorada, uma espécie de cidadã de segunda classe”, contou a atriz]; Hellen Mirren, de 70 anos, também criticou a indústria, citando a franquia do espião “James Bond” como exemplo. “Todos assistimos James Bond, enquanto ele ficava mais velho, suas namoradas ficavam cada vez mais novas. É muito entristecedor.”

Até mesmo Meryl Streep, de 66 anos, já opinou sobre o assunto. Para ela, as atrizes deveriam interpretar mulheres que estão nas mesmas faixas etárias, além de confessar que, quando completou 40 anos, teve “uma espécie de reação política contra o conceito de mulheres mais velhas serem demonizadas e de que a idade era uma coisa horrorosa e assombrosa.” “Eu nunca gostei disso. Não gostava disso quando era uma garotinha, não gosto disso agora”, contou a artista na estreia do filme “Caminhos da Floresta”.

Não se perde o talento com a idade, pelo contrário, ele vai sendo lapidado e tende a aumentar conforme as experiências vão sendo adquiridas. E enquanto homens parecem ganhar cada vez mais espaço no cinema enquanto envelhecem, as mulheres vão sendo excluídas gradualmente. Em tempos de discussão sobre diversidade racial no Oscar em Hollywood, deveríamos cobrar por uma discussão, também, sobre diversidade com recorte de gênero e idade, como destacou Catherine Zeta-Jones.

“Há uma conversa em Hollywood sobre diversidade agora, e é uma boa e necessária conversa, mas quando dizemos diversidade, queremos dizer diversidade para atores com diferenças étnicas, diferentes idades e de gênero. Vamos voltar aos roteiristas, cineastas e, mais importante, aos estúdios que financiam os filmes, para que eles tenham projetos em que a diversidade tenha chance.”