Por que escalar um ator cisgênero para o papel de uma mulher trans não é uma boa ideia

10. setembro 2016 Cinema 1
Por que escalar um ator cisgênero para o papel de uma mulher trans não é uma boa ideia

Em mais um episódio de atores cisgêneros* interpretando mulheres trans, temos Matt Bomer (“The Normal Heart”) interpretando uma prostituta transgênera no filme “Anything”, projeto que marca a estreia de Timothy McNeil na direção. Também estão no elenco o ator John Carroll Lynch (“Milagres do Paraíso”), Maura Tierney (“The Affair), Margot Bingham (“The Family”) e Melora Hardin (“The Office”). O ator Mark Ruffalo é o produtor-executivo da obra.

(*cisgênero = pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi designado no nascimento)

Segundo informações da Variety, o longa é uma adaptação da peça de mesmo nome de McNeil, na qual um homem (Lynch) adquire tendências suicidas após a morte da esposa, e decide morar com sua protetora irmã (Tierney), que vive em Los Angeles. Lá, ele conhece uma prostituta transgênera (Bomer) com quem começa uma “intensa amizade”.

Como apontado pelo PapelPop, ao que parece, Matt não foi a primeira e única opção para o papel. A atriz trans Jen Richards comentou no Twitter que havia feito uma audição para a viver a personagem, o qual ela não conseguiu. “Eu fiz um teste para o filme. Eu disse a eles para não colocar um homem cis para interpretar uma mulher trans. Eles não se importaram”, afirmou.

Quem também não gostou nada dessa história foi Jamie Clayton, a Nomi de “Sense8”, que também reclamou da escalação de um ator cisgênero para o papel de uma mulher trans. “Eu realmente espero que vocês façam algo de bom para a comunidade trans um dia”, escreveu a atriz, citando Matt Bomer e Michelle Rodriguez, que também viverá uma personagem trans em outro filme.

Para ser sincero, acredito que Mark Ruffalo (produtor-executivo de “Anything”) tinha as boas intenções quando sugeriu Bomer para o papel principal. No Twitter, o Hulk do esquadrão dos “Vingadores” afirmou que foi sua ideia ter um ator cis no papel de uma mulher trans, e pediu desculpas. “À comunidade trans: estou escutando vocês. É terrível que vocês estejam sofrendo”. Contudo, boas intenções não apagam suas consequências.

Mas por que a escolha de atores cisgêneros para papéis de pessoas trans é tão problemática? É preciso ter em mente várias questões e no que essa decisão implica. Primeiramente, é preciso ter em mente a exclusão desse grupo do mercado de trabalho, e isso também diz respeito às artes. Ao escalar um ator cis para o papel, pessoas trans continuam sem trabalhar e conseguir construir sua própria carreira.

“Pessoas trans não estão em nenhuma produção, seja nos filmes de Hollywood ou mesmo nas novelas daqui [Brasil]”, contou a ativista trans Lana de Holanda em entrevista ao Prosa Livre. “Já tivemos Claudia Raia interpretando uma mulher trans na novela ‘As Filhas da Mãe’, e já tivemos a Hilary Swank dando vida a um homem trans no filme ‘Meninos não Choram’. Nesses dois casos, eram pessoas trans que já tinham passado por um processo de transição, então por qual motivo os papéis não foram dados para pessoas realmente trans? Porque nós não somos dignas nem de contar nossa própria história. Infelizmente a verdade é essa”.

E a mídia pode ajudar a romper com essa invisibilidade. Desde que estreou em “Orange Is The New Black” e foi capa da revista TIME, Laverne Cox engatou novos trabalhos, e pavimentou um caminho para a visibilidade para pessoas trans na televisão e no cinema. Mais do que nunca, temos visto as histórias desses indivíduos (“I Am Jazz”, “I Am Cait”, “Tangerine”, “Transparent”), entretanto, ainda vemos poucas pessoas trans atuando, até mesmo em suas próprias narrativas. E esse nem é o único problema.

A GLAAD, organização que monitora a representação LGBT na mídia dos Estados Unidos, fez um levantamento sobre a representação trans entre os anos de 2002 e 2012. O resultado não foi nada animador: durante o período de 10 anos, somente 102 episódios das séries televisivas trouxeram pessoas trans. Não fosse somente o número baixo, 54% dos personagens foram classificados como sendo representações negativas; 35% ficaram entre “problemático” e “bom”; e somente 12% foram considerados exemplares. Não só isso, a instituição também descobriu que em 40% dos papéis; pessoas trans eram “vítimas”, eram assassinas e vilãs em 21% das atrações; um quinto delas eram prostitutas; e 61% dos episódios continham mensagens contra pessoas trans.

“A mensagem que Hollywood passa é a de que não existe espaço para a diversidade”, reflete Lana de Holanda. “Quando se entra na questão das pessoas trans, isso só tende a piorar. Parece que na cabeça dos figurões de Hollywood, ter pessoas trans em determinado elenco não vai ser bom para o filme, então eles continuam fingindo que nós não existimos. E quando um filme possui um bom roteiro e pretende contar a história de uma pessoa trans, ainda assim eles vão lá e chamam o ator ou a atriz cis para viver aquele papel”.

E Isso leva ao segundo ponto: ao escalar um homem para o papel de uma mulher trans, perpetua-se a falsa ideia de que ser trans não passa de uma performance e que, no final, mulheres trans são apenas “homens com batom e saias”. E isso tem relação direta com a violência que essa população sofre diariamente.

A transfobia mata. O Brasil, por exemplo, é líder em números de mortes de transexuais e travestis. E embora os motivos para que esse crime de ódio aconteça sejam vários, não é difícil refletirmos sobre a concepção de que mulheres trans são homens disfarçados e como isso está leva à violência contra esse grupo.

Tradução: Homens cis interpretando mulheres trans resulta em morte”.

Tradução: “Homens héteros são atraídos por mulheres trans. Sempre foram, sempre serão. Nós somos algumas das prostitutas mais populares. É fato”.

Tradução: “MAS eles têm medo de que estar com uma mulher trans fará com que eles se tornem gays ou menos masculinos. Eles nos procuram, nos aproveitam, e então nos punem por sua ansiedade”.

Tradução: “Vamos ser mais diretas. Eles fazem sexo com a gente, preocupam-se de que isso torne-os gay, e então, reafirmam sua masculinidade através da violência contra a gente”.

Nos últimos anos, vimos Jared Leto, Jeffrey Tambor, Eddie Redmayne, e agora Matt Bomer, ocupando papéis que poderiam muito bem ter sido entregues a atrizes trans, as quais são bem capazes de fazer um ótimo trabalho. Veja Mya Taylor, por exemplo, que saiu premiada do Spirit Awards deste ano, por sua atuação em “Tangerine”.

Claro, alguém pode argumentar de que atores cis possuem um “apelo” maior com o público. Ou melhor, conseguem atrair bilheteria. Porém, como permitiremos que atrizes trans possam fazer o mesmo se não dermos a elas oportunidades? Do contrário, o ciclo de exclusão continua inalterado.

“Infelizmente ainda temos muitos passos para dar, muita coisa para alcançar”, conclui Lana de Holanda. “O primeiro direito que buscamos é o de mostrar que existimos, que somos seres humanos, e que precisamos ser representadas com verdade, com honestidade”.