Assistir a “The Handmaid’s Tale” me faz temer pelo futuro da comunidade LGBTQ

Assistir a “The Handmaid’s Tale” me faz temer pelo futuro da comunidade LGBTQ

Embora seja um dos melhores seriados da atualidade, “The Handmaid’s Tale” não é fácil de assistir. E isso porque a constante violência contra as mulheres na série (sexual, física e psicológica) na fictícia Gilead, um Estado teocrático que derrubou o governo dos Estados Unidos, torna a série em uma espécie de filme de terror e que não é tão distante da realidade.

E por eu me identificar como LGBTQ, isso faz com que eu tenha ainda mais medo de um futuro como aquele para mim e às pessoas como eu. Pode parecer exagero, mas todas as situações que acontecem na produção são baseadas em eventos do mundo real: estupro, mutilação feminina, casamento infantil e apedrejamento de mulheres que cometeram crimes, por exemplo, são violências ainda muito comuns em diversas partes do mundo. E quando falamos da realidade LGBTQ, perseguição e morte de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans são bem familiares para nós ainda hoje.

Se você não está tão familiarizado com o seriado, prepare-se para os spoilers. Através da perspectiva de June (Elisabeth Moss), vemos que, no futuro, o governo dos Estados Unidos foi derrubado por um grupo fanático religioso cristão, o qual segue bem à risca o que está escrito na Bíblia. Os homens são a autoridade máxima, tendo controles sobre suas mulheres e todas as decisões que são tomadas em casa e fora dela. Por exemplo, não é permitido que mulheres trabalhem ou que aprendam a ler.

Entre as mulheres, existem as castas. A começar pelas esposas, mulheres casadas com homens ricos e que detêm o poder em Gilead; existem as Marthas, em geral são mulheres de minorias étnicas, as quais são responsáveis por cozinhar e limpar a casa dos patrões; e há as empregadas (ou aias), cuja única função é engravidar do patrão, pois a taxa de fertilidade caiu muito no futuro, e muitas esposas não conseguem gerar filhos. Dessa maneira, por ainda serem férteis, uma vez ao mês elas são obrigadas a participarem de uma “cerimônia”, onde são estupradas pelos homens das famílias. Uma vez que engravidarem e darem à luz, elas são transferidas para outro casal. Com esse cenário, é possível entender como é difícil ser mulher na distopia de “The Handmaid’s Tale”.

E ser LGBTQ no seriado não é nada fácil também, já que somos considerados “traidores de gênero”. A partir das narrativas de Moira (Samira Wiley) e Emily (Alexis Bledel), conseguimos entender o que acontece com as mulheres e homens queer. Na tomada de poder, a comunidade LGBTQ foi perseguida, torturada e morta, com exceção das mulheres lésbicas e bissexuais férteis, as quais foram transformadas em empregadas. É o caso das duas personagens citadas, que foram separadas de suas famílias e sofreram todo tipo de agressão.

Moira e Emily tinham vidas próprias antes da República de Gilead assumir o poder. Ambas tinham carreiras e relacionamentos, mas foram presas e forçadas a entrar no regime da nova nação. As duas, contudo, não se conformam com a nova realidade e planejam escapar ou destruir o sistema de dentro para fora. A primeira chega a fugir para o Canadá, onde finalmente consegue abrigo, enquanto a segunda tem um destino cruel.

Em Gilead, Emily comete o “crime” de se relacionar com outra mulher, uma Martha, e as duas vão a julgamento. Por ser fértil, ela é encaminhada para a “reabilitação”, o que é uma cirurgia de remoção do seu clitóris, enquanto sua parceira é condenada à morte por enforcamento. Isso tudo enfurece ainda mais a personagem, que chega a matar um homem e acaba parando nas Colônias, um espaço dedicado para receber mulheres subversivas. Lá, elas são obrigadas a trabalhar em um ambiente de extrema precariedade até morrerem. 

Na segunda temporada, conhecemos um pouco mais sobre o passado de Emily, que trabalhava como professora de biologia em uma universidade, e tinha uma esposa e um filho. Em um certo dia, seu superior pede a ela que deixasse de dar aulas e que fosse trabalhar no laboratório, sugerindo ainda que ela apagasse a foto de sua família do telefone, em uma tentativa de protegê-la. Isso porque ele é gay e também está tomando cuidado, pois o novo governo não tolera homossexuais.

“Eu achava que a minha geração havia sido a última a ter de lidar com essa merda”, ele diz a Emily. “Eu achava que vocês eram muito mimados. Bem-vinda à luta. Ela é uma droga”. Eventualmente, o homem é morto por enforcamento dentro do campus da universidade, com uma pichação sob seu corpo que diz: “viado”.

É uma perspectiva assustadora, que retrata os medos que nós, LGBTQs, vivemos diariamente. E por mais que se trate de um futuro distópico, dói saber que esse tipo de situação já acontece em países onde a homossexualidade é considerada crime. Pense na Chechênia, por exemplo, onde há campos de concentração para homossexuais. Na Rússia, homossexuais também não podem demonstrar afeto em público.

Mas fora dessas nações, até em algumas ditas “liberais” (como o próprio Brasil), nós somos discriminados por muitos daqueles que usam a Bíblia como escudo para seus preconceitos. Recentemente, um confeiteiro americano ganhou um processo que chegou à Suprema Corte do seu país, o qual deu permissão a ele para não atender casais LGBTQ em seu estabelecimento, por conta da sua religião. Também nos Estados Unidos, a administração do presidente Donald Trump parece estar em uma perseguição contra a população de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, retirando-os do Censo nacional de 2020. Não fosse isso o bastante, Trump vem retirando proteções contra esses indivíduos, principalmente de pessoas pessoas trans.

A respeito do nosso país, no ano passado, 27 anos depois da Organização Mundial de Saúde (OMS) ter retirado a homossexualidade da lista de doenças, estávamos discutindo a possibilidade de psicólogos oferecerem tratamento para uma suposta “cura gay”. E não vamos nos esquecer dos altos índices de violência e assassinatos da população LGBTQ brasileira, além da taxa alarmante de estupros corretivos contra lésbicas, mulheres bissexuais e pessoas trans. 

Ou seja, Gilead não é tão distante da realidade de muitos LGBTQs. Por isso,”The Handmaid’s Tale” serve como um aviso para todos nós. Se não formos vigilantes de nossos direitos e não protestarmos por eles, o futuro de “The Handmaid’s Tale” pode vir a ser o nosso. E ninguém gostaria de ver a vida imitar a arte nesse caso.