De tempos em tempos somos lembrados do quão comum é o assédio sexual. É hora de deixá-lo no passado

13. novembro 2018 Famosos 0
De tempos em tempos somos lembrados do quão comum é o assédio sexual. É hora de deixá-lo no passado

No último sábado (10), o SBT realizou o Teleton, a maratona solidária em prol da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), como costuma fazer anualmente. Uma das atrações musicais foi Cláudia Leitte, que apresentou sua nova música, “Balancinho”, e foi vítima de comentários grotescos de Silvio Santos, que estava no palco para conversar com ela.

Cláudia usava um vestido rosa, que logo foi alvo dos olhares inapropriados do dono do SBT, o que a fez se afastar dele. Em seguida, ela diz que é casada e que tem dois filhos, e Silvio diz que deve haver algo de errado no casamento dela, para que o marido ‘permita’ que ela se vista daquela maneira. “A mulher, quando ela é segura de si, ela vai ganhando mais espaço na vida dela. Ele [o marido] sabe que eu sou dele”, respondeu a artista, emendado que estava ali para conseguir doações para a AACD. “A gente vem com tudo”, disse a cantora, ouvindo de Silvio: “você veio quase sem nada”. 

Depois, Cláudia pediu um abraço para o apresentador, que disse que não a abraçaria porque isso o deixava “excitado”. “Não, esse negócio de eu ficar dando abraços me excita e eu não posso ficar excitado”, afirmou. “No sentido feliz da palavra. De alegria, de euforia”, tentou contornar Cláudia. “Não é euforia não, é excitação mesmo”, retrucou o ‘patrão’. “Agora eu acho que o meu marido tem uma razão para ficar chateado”, respondeu a cantora. Silvio continuou ainda, dizendo que, ao ver uma mulher vestida daquele jeito, “dá vontade de sair da poltrona, tomar umas cervejas e depois procurar um conforto”. Ao dizer isso, Cláudia começou a esticar o vestido para baixo, provavelmente numa tentativa de se cobrir mais com o vestido. “Eu tô quase pensando em vazar”, disse a artista depois.

De tempos em tempos, somos lembrados do quão comum é o assédio sexual. De experimentos sociais nas ruas até casos e mais casos envolvendo figuras poderosas da indústria do entretenimento, passando por comentários inaceitáveis nas redes sociais contra uma menina em um programa de TV, essa violência atinge a todas as mulheres e parece costurar as experiências femininas. Não importa quem seja aquela mulher, em algum momento ela vai sofrer assédio, seja na rua ou no trabalho.

Para se ter uma ideia mais exata, a situação vivenciada por Cláudia Leitte, infelizmente, acontece diariamente, em todos os cantos do Brasil e do mundo. Segundo uma pesquisa do Datafolha, 42% das mulheres brasileiras já sofreram assédio sexual em algum momento da vida. Entre as adolescentes, o percentual é ainda maior: 56%. No ambiente de trabalho, de acordo com um levantamento do site de empregos Vagas.com, 79,9% das mulheres já foram assediadas. E em uma pesquisa mundial, o assédio sexual apareceu como principal problema enfrentado por mulheres (32%), seguido da violência sexual (28%) e da violência física (21%).

E caso não tenha ficado evidente o que é assédio sexual, ele é caracterizado por uma ação/comportamento/comentário sexual sem o consentimento da outra pessoa. Nesse sentido, cabem as ‘cantadas’ de rua, contatos físicos e verbais indesejados, como foram as lamentáveis cenas exibidas no Teleton. O assédio sexual pode deixar marcas na vítima, dificultando, inclusive, o relacionamento da mesma com futuros parceiros e parceiras afetivos. Também, é possível que a pessoa desenvolva problemas em outras áreas da vida, tamanho o trauma que carregam.

Portanto, é preciso falar a respeito disso. Vivemos em uma cultura que culpabiliza a vítima (julgam as roupas, as falas, o local onde estava e se estava sozinha), mas relevam a responsabilidade do agressor. No caso de Silvio Santos, o que não faltaram foram justificativas de que ele já é um senhor de idade e que, portanto, é de uma época em que aquela atitude era considerada normal. Esse comportamento de assediar alguém nunca foi normal, tampouco ser idoso pode ser utilizado como desculpa, como bem defendeu o Buzzfeed ao tratar o assunto. 

Houve ainda quem dissesse que Cláudia Leitte deveria ter mais senso de humor e aceitar a ‘brincadeira’. Pelo contrário, ela e nenhuma mulher deveria encarar o assédio sexual como parte do comportamento masculino ou como uma forma jocosa de interação. Como dito anteriormente, essa é uma violência que deixa marcas e que não deve ser aceita. Aliás, quanto mais falarmos sobre assédio, mais pessoas que são vítimas dele poderão reconhecer que estão vivenciando essa agressão e poderão, caso consigam, fazer algo a respeito. Não só isso, há um medo grande de que ninguém acredite no que estão vivenciando e, quando há mais pessoas se manifestando contra a violência, ela se sente mais fortalecida e confiante para lutar e a lutar pelo seu direito de existir e ocupar espaços sem o medo de represálias.

Ontem, Cláudia Leitte se manifestou brilhantemente no Instagram sobre o ocorrido. Vamos torcer para que suas palavras ecoem, estimule uma mudança de comportamentos e que esse triste caso possa servir para que nós não mais naturalizemos esse tipo de violência contra as mulheres.

“Aonde quer que eu vá, minha entrega é total. Tem que ser com todo amor do mundo, especialmente quando se trata de contribuir para o bem de alguém. Senti-me constrangida sim! Quando passamos por episódios desse tipo, vemos em exemplificação, o que acontece com muitas mulheres todos os dias, em muitos lugares. Isso é desenfreado, cruel, nos fere e nos dá medo. A provocação vem disfarçada de piada, e as pessoas riem, porque acostumaram-se, parece-nos normal! E lá se vai a nossa vida, cheia de reflexões quanto ao que usar como artista, como empresária, como esposa, como amiga, como empregada, como patroa… como mulher. Até que horas podemos estar nas ruas? Aprendemos a nos esquivar. Fizemos concessões porque fomos educadas assim. Mas, nós que somos vítimas! “Ah, mas se estivéssemos usando outra roupa?” Definitivamente a culpa não é do que estamos usando! A culpa é dessa atitude constrangedora e de dois pesos e duas medidas. Somos livres! Eu, como cantora, ciente do meu papel e da responsabilidade que carrego, sentia que precisava dizer isso a vocês, meus fãs, e a todas as pessoas, em especial às mulheres, que longe do olhar público sofrem todos os dias”.

View this post on Instagram

Aonde quer que eu vá, minha entrega é total. Tem que ser com todo amor do mundo, especialmente quando se trata de contribuir para o bem de alguém. Senti-me constrangida sim! Quando passamos por episódios desse tipo, vemos em exemplificação, o que acontece com muitas mulheres todos os dias, em muitos lugares. Isso é desenfreado, cruel, nos fere e nos dá medo. A provocação vem disfarçada de piada, e as pessoas riem, porque acostumaram-se, parece-nos normal! E lá se vai a nossa vida, cheia de reflexões quanto ao que usar como artista, como empresária, como esposa, como amiga, como empregada, como patroa… como mulher. Até que horas podemos estar nas ruas? Aprendemos a nos esquivar. Fizemos concessões porque fomos educadas assim. Mas, nós que somos vítimas! “Ah, mas se estivéssemos usando outra roupa?” Definitivamente a culpa não é do que estamos usando! A culpa é dessa atitude constrangedora e de dois pesos e duas medidas. Somos livres! Eu, como cantora, ciente do meu papel e da responsabilidade que carrego, sentia que precisava dizer isso a vocês, meus fãs, e a todas as pessoas, em especial às mulheres, que longe do olhar público sofrem todos os dias.

A post shared by Claudia Leitte (@claudialeitte) on