“As Vantagens de Ser Invisível” é um filme que acerta na abordagem de doenças mentais

01. setembro 2018 Cinema 0
“As Vantagens de Ser Invisível” é um filme que acerta na abordagem de doenças mentais

Lançado em 2012, “As Vantagens de Ser Invisível” é um filme sobre a adolescência, com o diferencial de que ele realmente se propõe a retratar essa fase da vida cheia de descobertas e confusões. O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito por Stephen Chbosky, que também dirigiu e roteirizou a obra cinematográfica, fazendo um belo trabalho ao levar às telonas a vida de Charlie (Logan Lerman).

O menino está prestes a entrar no colegial e escreve cartas a um amigo imaginário, pois Charlie não tem amigos de verdade. Depois de ser internado em um hospital psiquiátrico no último verão, ele está prestes a entrar no colegial, e quer fazer novas amizades e se destacar. O que acontece é o oposto disso, pois o garoto é muito introvertido e o único amigo que faz é o professor de inglês, o adorável senhor Anderson (Paul Rudd). Eventualmente, ele é adotado por um grupo formado por Patrick (Ezra Miller), Sam (Emma Watson), Mary Elizabeth (Mae Whitman), Alice (Erin Wilhelmi) e Bob (Adam Hagenbuch), com quem pode se abrir e ser ele mesmo. As coisas vão relativamente bem até que seus novos amigos se afastam e sua saúde mental começa a deteriorar, o que leva Charlie a recordar situações que têm uma forte ligação com quem ele é hoje e com a sua forma de se relacionar.

Charlie fala muito sobre sua tia Helen (Melanie Lynskey), a qual ele amava muito, mas que morreu em um acidente de carro quando ele pequeno. O menino acredita que a morte era sua culpa, pois ela estava levando a ele seu presente de aniversário. Porém, conforme os flashbacks acontecem, descobrimos que ele foi abusado sexualmente pela tia, e essa é uma lembrança que ele reprime, ficando apenas com a memória e a culpa pela morte dela.

Esse evento traumático desencadeia uma ansiedade que o acompanha até o final de “As Vantagens de Ser Invisível”, quando ele volta a ser internado em um hospital psiquiátrico e começa a trabalhar suas emoções com uma médica profissional e remédios.

Embora o filme não faça um diagnóstico de qual doença mental Charlie possui, é possível que ele tenha Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), um transtorno que é desenvolvido após um indivíduo vivenciar ou testemunhar uma experiência traumática, como um estupro. Era comum associar esse distúrbio a soldados que sobreviveram a guerras, mas a violência urbana e outros episódios também contribuem para que o TEPT se manifeste em qualquer pessoa.

A doença colabora ainda para o surgimento da ansiedade e depressão, transtornos que afetam Charlie. Durante o longa-metragem, também é possível perceber que o personagem tem dificuldade em gostar de si mesmo, o que afeta as relações que constrói com seus amigos (“nós aceitamos o amor que achamos merecer”). Por conta da morte da tia Helen, a qual ele julga ser sua culpa, ele se diminui e acredita que jamais será feliz, e vê  apenas o lado bom das pessoas, desdobrando-se para fazer bem aos outros e evitando dar sua opinião sobre as coisas. A todo instante, Charlie se anula pelos outros, e quando as coisas não saem como planejado, ele volta a se culpar e a sentir-se como um peso para as pessoas à sua volta.

Além disso, também é possível sugerir que Charlie estava considerando o suicídio há muito tempo, como quando ele escreve recados de despedida aos seus amigos no amigo secreto de Natal, ou quando abusa das drogas, já que ele experimenta diferentes tipos delas no meio do filme, adotando ainda um comportamento de risco. Outro sinal é quando ele dá a Sam seus livros, os quais são muito importantes para ele. Perto do fim, quando Charlie e Sam estão prestes a transar, ele recorda do estupro que sofreu quando era pequeno, o que o paralisa e pesa junto a outras lembranças que o fazem perder o controle emocional e considerar tirar sua própria vida ao ver uma faca na cozinha. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático é crônico, e quando não tratado, pode ser um distúrbio debilitante e que leva a situações extremas e perigosas como essas.

Ao fim, Charlie retorna ao hospital psiquiátrico, onde conhece a doutora Burton (Joan Cusack), que faz com que ele finalmente aceite a realidade do que lhe aconteceu e comece seu tratamento de recuperação. A médica diz a ele que nós não podemos escolher de onde viemos, mas podemos escolher para onde vamos, o que é algo que o menino incorpora ao aceitar ajuda e ser tratado com psicoterapia e medicação, além do amor e carinho de seus amigos e familiares.

Charlie entende que não é ‘uma história triste’, mas uma pessoa cheia de potencial para alcançar o que quer na vida. E essa é uma mensagem que todos podemos levar conosco. “As Vantagens de Ser Invisível” é um bom exemplo de uma obra que lida bem com doenças mentais, dando ao público uma mensagem de que tudo é temporário e de que as coisam podem ficar bem.

Caso você esteja precisando de ajuda:

  • o Centro de Valorização à Vida (CVV) realiza atendimentos pelo site e pelo número 188 e 141 (para Bahia, Maranhão, Pará e Paraná);
  • procure o CAPS e Unidades Básicas de Saúde (saúde da família, postos e centros de saúde);
  • em caso de emergência: SAMU 192, UPA, pronto socorro e hospitais.

*Geralmente, eu faço links de onde tiro as informações, mas por se tratar de um tema delicado e que pode fazer mal a algumas pessoas, evitei linkar as notícias e postar imagens.