As mulheres de Hollywood contra a desigualdade salarial

07. dezembro 2016 Famosos 0
As mulheres de Hollywood contra a desigualdade salarial

No Oscar de 2015, a atriz Patricia Arquette subiu ao palco para receber sua estatueta dourada de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ por seu papel no filme “Boyhood”. Sua vitória era esperada, diferente de seu discurso, que chamou a atenção de todos ao pedir a igualdade salarial entre homens e mulheres.

“Para todas as mulheres que deram à luz a cada pessoa que paga impostos e cidadãos dessa nação: nós lutamos pelos direitos iguais de todos. É a nossa vez de termos salários e direitos iguais de uma vez por todas para todas as mulheres dos Estados Unidos”.

Suas palavras ecoaram por todo o território americano e pelo mundo. A partir daí, a mídia deu início a uma conversa necessária sobre a desvalorização da mulher no mercado de trabalho, assunto que já era uma pauta antiga do movimento feminista. Não só isso, a atitude de Arquette levou outras atrizes a compartilharem suas próprias experiências em Hollywood.

Jennifer Lawrence, uma das artistas mais concorridas do cinema, foi uma delas. Em outubro do ano passado, ela escreveu um artigo para a newsletter da também atriz Lena Dunham, recordando do vazamento de emails da Sony, episódio que acabou revelando que Lawrence e Amy Adams receberam menos do que os homens com quem contracenaram no filme “Trapaça”.

Segundo a estrela de “Jogos Vorazes” relatou, ela desistiu de lutar por um salário maior, com medo de ser vista como “mimada” ou “difícil”.

“Isso é uma parte da minha personalidade que eu tenho lutado contra há anos e, com base nas estatísticas, eu não acho que eu seja a única mulher com esse problema. Somos condicionadas a nos comportarmos dessa maneira?”

Tanto o texto de Jennifer quanto o discurso de Patricia foram elogiados. Contudo, nenhuma dessas mulheres ficou imune às críticas. Uma delas dizia respeito ao privilégio que elas possuem: ambas são ricas, brancas e fazem parte de uma indústria que lucra, e paga a elas, milhões de dólares. Como elas poderiam reclamar, enquanto há mulheres que nem mesmo sonham em receber o mesmo em uma vida inteira? Como poderiam reclamar quando há mulheres sem emprego ou que precisam fazer verdadeiros sacrifícios para sustentar suas famílias?

E embora as reclamações sejam justas, também é válido refletir: se nem mesmo duas atrizes de Hollywood não recebem o mesmo que seus colegas homens, o que esperar, então, das mulheres cujos trabalhos não têm a mesma visibilidade?

A disparidade salarial

Patricia Arquette no Oscar 2015

A diferença de salários entre homens e mulheres é real, embora muitos ainda neguem que ela exista de verdade. Pesquisas recentes apontam que as mulheres americanas recebem, em média, 79% dos ganhos de um homem.

Porém, quando o fator raça é adicionado, esse percentual diminui: as afro-americanas recebem 63% do que ganha um homem branco; as indígenas 59%; e as hispânicas ou latinas 54%. As asiáticas são o grupo com a menor disparidade salarial em relação aos homens brancos: elas recebem 10% menos do que eles, enquanto as mulheres brancas recebem 22% menos.

No Brasil, a situação também não é animadora. Mesmo com um aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho nacional, elas ainda recebem 30% menos do que homens, mesmo executando as mesmas funções. E segundo dados do Pnad (Pesquisa Nacional de Domicílios), essa diferença fica maior com o aumento da escolaridade: enquanto as mulheres com ensino superior recebem 58,4% dos rendimentos de um homem, as mulheres com escolaridade mais baixa recebem 65,9% dos ganhos de um homem.

O fato raça também faz a disparidade aumentar no país: um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que as mulheres negras recebem menos de 40% do salário de um homem branco. São elas, também, as mais penalizadas em crises financeiras e em situações de desemprego.

Segundo estimativas do Fórum Econômico Mundial, levará mais de um século para que o Brasil elimine a desigualdade de gênero, caso o ritmo das mudanças continue o mesmo.

Hollywood

Jennifer Lawrence e Amy Adams em cena de “Trapaça”

Portanto, a disparidade salarial está em todas as indústrias, e isso inclui a bilionária Hollywood. Vamos levar em consideração Jennifer Lawrence, mais uma vez. A atriz foi, pelo segundo ano consecutivo, a atriz mais bem paga do mundo, de acordo com a revista Forbes, recebendo US$ 46 milhões no último ano. O valor exorbitante, entretanto, é menor que o de Dwayne Johnson, o ator mais bem pago, que arrecadou US$ 64,5 milhões.

Não só isso, um estudo de 2014 concluiu que os salários das atrizes crescem até os 34 anos, e daí para frente, eles caem dramaticamente. Ao mesmo tempo, o salário dos homens cresce até os  51 anos, e mantêm certa estabilidade depois da marca. Isso significa que Lawrence, com 26 anos, ainda tem mais 8 anos antes de ver seus ganhos decaírem e os trabalhos ficarem mais escassos, já que Hollywood demonstra não ter muito apreço por mulheres que se aproximam – e passam –  dos 40 anos.

E para ser honesto, o cinema não parece ter apreço por mulheres em qualquer idade, já que elas ainda são minoria dos personagens que vemos nos filmes. Um levantamento feito em 2016 pela Escola Annenberg de Jornalismo mostra que as mulheres foram 31,4% de todos os personagens apresentados nas 100 produções mais populares de 2015.

Mas não nos esqueçamos das atrizes de minorias étnicas. Elas possuem menos oportunidades de trabalho, segundo a mesma pesquisa da Escola Annenberg. Enquanto latinos são 5,3% dos personagens, desse total 32,7% são mulheres latinas; dos 12,5% de personagens negros, 27,8% são mulheres negras; e dos 3,9% dos asiáticos, 29,3% são mulheres asiáticas.

Atrás das câmeras a figura também é decepcionante. Entre 2007 e 2015, 886 pessoas dirigiram os 800 maiores filmes lançados no período avaliado (exceto 2011), sendo 5,5% deles negros. Desse percentual, somente 3 são mulheres negras. Em 2015, 8 mulheres foram diretoras de alguns das 100 produções mais populares. Porém, todas eram brancas.

Ou seja, o que separa essas mulheres de todos os outros é a oportunidade, como bem pontuou Viola Davis em seu emocionante discurso feito no Emmy Awards do ano passado.

O que está sendo feito:

Dentro da indústria cinematográfica, mulheres em diferentes funções, têm reclamado da disparidade salarial e da falta de oportunidades. Isso possibilita não apenas uma mudança dentro de Hollywood, como também fora dela, encorajando mulheres a pedirem um aumento e melhoras nas condições de trabalho nas empresas em que trabalham.

Desde o discurso de Patricia Arquette, em 2015, alguns Estados americanos aprovaram leis de igualdade salarial, enquanto outros aprovaram projetos de lei para equiparar os salários das mulheres, e que facilitam a abertura de processo caso as mulheres não sejam remuneradas de forma justa, ou caso sejam discriminadas por terem filhos.

Arquette acabou perdendo papéis por conta de suas palavras no Oscar, mas afirmou ter ficado contente ao ver como o debate sobre a desigualdade salarial tomou grandes proporções.

Bradley Cooper, estrela de vários filmes, como “Sniper Americano” e “O Lado Bom da Vida”, afirmou que dividirá com as atrizes o seu salário, para ajudá-las a negociar valores maiores ou iguais ao dele.

Não só isso, algumas empresas, como a Intel, Facebook, Microsoft, Apple, Amazon e Berliner Wassertriebe, estão comprometidas a eliminar a diferença salarial entre seus funcionários.

Obviamente, as atrizes de Hollywood não podem ser responsáveis pela mudança que está acontecendo, afinal, ativistas e muitas mulheres que não possuem a mesma plataforma vêm lutando pela equidade de gênero há muito tempo. Mas é inegável o poder que elas tiveram em levar uma causa tão importante a mais pessoas, e a forçar políticos e líderes de empresas a tomar decisões que possam mudar a vida de meninas e mulheres.

Confira agora uma lista de artistas que se manifestaram contra a disparidade salarial, além de Patricia Arquette e Jennifer Lawrence:

Felicity Jones:

Protagonista de “Star Wars: Rogue One”, a atriz britânica disse que quer ser paga de maneira justa pelo trabalho que está realizando.

“É o que toda mulher no mundo quer”, disse em entrevista à revista Glamour. “Queremos ser pagas iguais aos homens quando estamos em posições similares. E acho que é importante falar sobre isso”.

Beyoncé:

Em 2014, Beyoncé escreveu uma carta aberta pedindo por igualdade de gênero, o que inclui igualdade salarial.

“Precisamos parar de acreditar no mito da igualdade de gênero. Não é uma realidade ainda. Hoje, as mulheres representam metade da força de trabalho dos EUA, mas ganham em média 77% do que os homens. Mas, a menos que tanto as mulheres como os homens digam que isso é inaceitável, as coisas não vão mudar. Os homens têm de exigir que suas esposas, filhas, mães e irmãs ganhem um salário compatível com as suas qualificações e não o seu gênero. A igualdade será alcançada quando os homens e mulheres garantirem igualdade de remuneração e respeito”.

Kerry Washington:

Nos Estados Unidos, existe o “Equal Pay Day” (“Dia do Pagamento Igualitário”, em português), data em que se lembra a luta contra a disparidade salarial entre homens e mulheres. Kerry Washington fez questão de demonstrar apoio à causa no ano passado, compartilhando o link de uma campanha para salários mais justos para mulheres. “Quando nos levantamos, criamos oportunidades”.

Salma Hayek:

Foto: Pascal Le Segretain

Em um evento realizado em 2015, a atriz mexicana considerou a desigualdade salarial “um crime”.

“Esse é um problema presente em todas as indústrias. Se você tem as mesmas capacidades e faz o mesmo trabalho, é um crime não receber o mesmo salário”.

Viola Davis:

Viola Davis comenta sua vitória no Emmy Awards: "Nós não sabemos discutir raça"
Foto: Mark Davis

Antes do Oscar deste ano, Viola Davis conversou com o site Mashable, para o qual deu sua opinião sobre a disparidade salarial. Enquanto ela acredita que as mulheres precisam ganhar o mesmo que os homens, a atriz lembra, também, que as mulheres negras e de outras raças e etnias ainda lutam para serem reconhecidas como seres humanos.

“Eu acredito em igualdade salarial. Desculpe-me, se uma uma mulher faz o mesmo trabalho de um homem, ela deveria receber a mesma quantidade de dinheiro. Ela deveria. É assim que o mundo deveria ser. O que você vai dizer à sua filha quando ela crescer? ‘Você precisa entender que você é uma menina e por ter uma vagina você não é tão valiosa?’ O que você vai dizer a ela?

Mas, ao mesmo tempo, como uma mulher negra, preciso dizer algo que provavelmente vai me contradizer. É algo que eu não penso diariamente. A luta para nós, mulheres de cor, é sermos vistas da mesma forma que as nossas colegas brancas”.

Charlize Theron:

charlize theron mad max filme feminista

Charlize Theron, uma das estrelas de “O Caçador e a Rainha de Gelo”, contou ter exigido o mesmo salário que Chris Hemsworth para fazer o filme.

“Nós precisamos bater o pé. Essa é uma ótima época de fazer justiça e as meninas precisam aprender que ser feminista é algo bom. Não quer dizer que você odeia os homens. Significa direitos iguais. Se você faz o mesmo trabalho, então você deve ser remunerada e tratada da mesma maneira”.

Scarlett Johansson:

Scarlett Johansson também comentou o assunto em uma entrevista para a revista Cosmopolitan. Ela disse que é muito privilegiada e, por isso, acredita que o debate precisa ser feito de forma ampla, e não ficar restrito a Hollywood.

“É estranho eu falar sobre isso, a menos que seja aplicado a um bem maior. Tenho muita sorte, faço um bom dinheiro e tenho orgulho em ser uma atriz que recebe tanto quanto meus colegas homens nesse ponto da minha carreira.

Acho que toda mulher já recebeu menos, mas, a menos que eu fale sobre isso como um problema muito maior, falar sobre o tema a partir da minha experiência, para mim, é um pouco esquisito. Isso é parte de uma conversa maior sobre o feminismo em geral”.

Sandra Bullock:

Numa conversa com a revista Variety, Sandra Bullock comentou a disparidade salarial entre homens e mulheres. A atriz acredita que é preciso mudar a forma como as mulheres são vistas, pois é a partir daí que a desigualdade de gênero começará a desaparecer.

“Como você vai explicar para o seu filho que a ERA [uma emenda à Constituição americana que garantiria a igualdade de direitos] não passou? Eu quero que ele pense que eu sou a chefe e que as mulheres são iguais. Espero que durante a minha vida, para ele, tudo seja equitativo. Temos que ter esperança”.

Nicki Minaj:

Foto: Brad Barket

Eleita uma das personalidades mais influentes do mundo pela revista TIME, Nicki Minaj falou à publicação sobre salários.

“Uma coisa que eu aprendi sobre negócios ao longo do tempo é a necessidade de não ter remorsos ao pedir o dinheiro que você merece. Eu acho que as mulheres tendem a sentir que não devem pedir para serem compensadas tanto quanto um homem fazendo a mesma coisa.

Se você sabe que é ótima no que faz, nunca tenha vergonha de pedir o valor que merece na sua área. Se eu sou ótima no que eu faço, eu não posso ser negada. Algumas coisas podem não ter sido vistas, mas ninguém pode negar minha marca e essas são as palavras de sabedoria que eu daria para outras jovens mulheres”.

Amy Adams:

Para a revista GQ, Amy Adams disse que sabia que receberia menos por seu papel em “Trapaça”, mas optou por fazer o filme mesmo assim.

“Eu sabia. Eu não disse nada sobre isso antes, e provavelmente eu nunca vá falar sobre, porque eu discordo de… Não da Jennifer, mas das pessoas que tinham opiniões sobre como as mulheres devem negociar. A verdade é que nós contratamos pessoas para negociar em nosso nome, homens e mulheres. Eu sabia que eu receberia menos e concordei, porque as opções são fazer ou não. Então, você precisa decidir se vale a pena para você. Não significa que eu tenha gostado disso”.

Kate Winslet:

Foto: Casey Curry

A atriz britânica contou para a BBC que não gostava de conversar sobre salário, dizendo que era algo “vulgar” e não era bom discutir isso em público. Ela teria creditado sua nacionalidade como motivo para não gostar de falar sobre o assunto. Contudo, em entrevista ao E! Online, ela disse que foi mal-interpretada.

“Quando você fala de algo específico sobre salário, esse é um tipo de questão que eu não gosto. Por isso, meus comentários foram em resposta a isso e comente isso. Claro que nós devemos receber o mesmo que os homens. Queremos estar lado a lado com eles”.

Taraji P. Henson:

Em seu livro, Taraji P. Henson, da série “Empire”, contou que recebeu muito pouco por seu papel no filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Ela alega ter sido paga menos de 2% do que Brad Pitt recebeu, e teve de custear suas próprias acomodações enquanto gravava o filme. O longa, contudo, mudou a carreira de Taraji, que ainda levou uma indicação ao Oscar pelo papel.

“A matemática é bem simples: há muito mais talentosas atrizes negras do que papéis significativos para elas. É exatamente assim que um estúdio faz para pagar menos de 2% a uma pessoa, cujo nome é o terceiro na lista de chamada de um filme de grande orçamento. Eu sabia das condições: não importa o quão talentosa, não importa quantos prêmios meus trabalhos tinham recebido, se eu pedisse por mais dinheiro, eu seria substituída num piscar de olhos”.

Meryl Streep:

Com 3 Oscars em sua estante, até mesmo Meryl Streep, já recebeu menos do que seus colegas de profissão:

“Sim. É preciso que todos se abram, e que os homens nos ajudem. Acho que, quando os homens veem uma sala somente com homens, eles sentem que isso está certo. Todos nós deveríamos ser incluídos, somos metade da raça humana”.

Jane Fonda:

A atriz, estrela da série “Grace & Frankie”, prefere se manter positiva sobre as soluções para a disparidade salarial:

“É um problema em todos os lugares, e acho que será resolvido. Aposto que será ainda na minha vida, e isso quer dizer algo, já que eu estou bem velha”.