“Apeshit” e a evolução do trabalho de Beyoncé

28. junho 2018 POP 0
“Apeshit” e a evolução do trabalho de Beyoncé

Há quatro anos, Beyoncé fez um ato grandioso no palco do VMA, posicionando-se em frente a um enorme telão que dizia “feminista” em letras maiúsculas. Aquela era uma das primeiras oportunidades em que a cantora demonstrava aos fãs e ao público seu envolvimento em movimentos políticos. Foi um momento importante na cultura pop: uma das mulheres mais influentes da música e do mundo chamava a atenção para uma palavra que, por muito tempo, era vista de maneira negativa. Funcionou. Naquela mesma época, as conversas envolvendo os direitos das mulheres também começaram a acontecer, em parte, graças à manifestação da artista na premiação.

A posição de Queen Bey, contudo, não veio totalmente sem precedentes: no começo de 2013, a cantora havia dito que a “igualdade” entre gêneros era “um mito” e que “todo mundo aceita o fato de que as mulheres não fazem tanto dinheiro quanto os homens”. Ao final do mesmo ano, ela lançou um álbum que levava seu nome, o quinto da carreira, no qual uma das faixas trazia parte do famoso discurso da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “Todos devemos ser feministas”. Em seguida, veio um texto escrito pela voz de “Run the World” sobre disparidade salarial e um comercial que incentiva meninas a serem líderes. 

Acelerando o calendário para 16 de junho de 2018, Beyoncé lançou um novo disco de surpresa, dessa vez em parceria com seu marido Jay-Z. Assinando a obra com o sobrenome dele, The Carters, o casal trouxe ao mundo o disco “Everything Is Love”, que apresenta um olhar sobre a vida extravagante dos dois, além de fazer comentários sobre a carreira e identidade. Junto da obra, veio o clipe da canção “Apeshit”, uma das faixas presentes nesse novo projeto, fazendo uma crítica à invisibilidade negra nas artes.

Todo gravado no Louvre, um dos maiores museus do mundo, o vídeo traz o casal Carter e dançarinos de costas para obras valiosíssimas, desafiando o viés eurocêntrico e colonizador das artes, ao mesmo tempo em que coloca a identidade negra como sendo tão preciosa quanto os quadros e esculturas presentes naquele local.

Eu não vou dissecar o clipe de “Apeshit”, pois já há muitos vídeos e textos na internet examinando cada quadro e as possíveis referências e intenções do casal com a obra audiovisual (este, este, este, este e este são alguns dos conteúdos mais interessantes que li nas últimas semanas). Meu objetivo aqui é olhar a evolução dos trabalhos de Beyoncé, que tem conseguido inserir neles a sua identidade e seus posicionamentos políticos e pessoais.

Como apresentado no começo do texto, não é de hoje que a cantora tem usado sua plataforma para abordar os direitos das mulheres e dos negros. Porém, nem sempre foi assim: apesar de cantar sobre empoderamento feminino desde os tempos do grupo Destiny’s Child (“Survivor” e “Independent Woman”), Bey não costumava se manifestar abertamente sobre causas. A igualdade sempre fez parte de sua marca, mas nunca explorada como agora. Ou pelo nunca explorada com a mesma força e inteligência utilizadas hoje em dia.

Há 15 anos, ela lançava “Dangerously in Love”, seu primeiro álbum solo, o qual gerou dois singles em primeiro lugar na Billboard Hot 100 (“Crazy in Love” e “Baby Boy”) e que foi um grande sucesso comercial. O tema principal do disco era o amor, o mesmo da maioria das canções da artista. E não há nada de negativo em falar sobre amor, um dos sentimentos mais trabalhados nas artes, especialmente, na música, onde ele ganha as mais variadas formas e abordagens. Com Beyoncé não foi diferente, e ela apresentou algumas das melhores canções de amor dos últimos tempos, inclusive de amor-próprio, como podemos ver e ouvir em “Me, Myself & I”.

A canção foi o terceiro single de “DIL” e traz a intérprete deixando para trás um homem que não a valorizava, transmitindo uma mensagem valiosa de auto-cuidado e independência. Em tempos em que muito falamos sobre superação de relacionamentos abusivos, Bey já cantava sobre isso em 2003. Não que isso fosse algo exclusivo dela, mas é interessante notar que em uma coleção de músicas sobre estar “perigosamente apaixonada” por alguém, ela tenha escolhido como single justamente uma sobre aprender a ficar sozinha e ficar bem consigo mesma.

Ainda nessa linha, Beyoncé possui outras músicas sobre superação e encontrar sua própria força. Em “B’Day”, de 2006, ela reitera a importância de não manter em sua vida alguém que não a respeita (“Irraplaceable”) e que tenta controlá-la (“Listen”). Esse mesmo disco traz novas facetas da estrela, apresentando uma mulher complexa, que se apaixona, mas que também tem suas próprias ambições, desejos, medos, e carências. Empoderamento é poder ser humana, com suas falhas e qualidades – e isso tudo é expressado pela cantora nesse disco (e perfeitamente na faixa “Flaws and All”).

Por exemplo, pegue “Upgrade U”, outra parceria com o marido, em que ela canta como pode fazer com que o homem da sua vida possa prosperar tendo uma mulher como ela em sua vida. Em “Ring the Alarm”, ela admite ter ciúme do parceiro (que parece estar traindo-a), enquanto em “Green Light” seu pedido é para que o cara saia logo de sua vida, caso não deseje mais ficar. Contudo, “Resentment” é, para mim, a faixa mais interessante desse trabalho. Aqui temos uma Beyoncé ferida e vulnerável, admitindo ter sido traída e tentando sem sucesso perdoar seu namorado. Ela o ama, mas é possível perdoá-lo e seguir em frente depois de tanta dor, mágoa e decepção?

E para quem gosta de mulheres se unindo contra o machismo, no dueto com Shakira “Beautiful Liar”, as duas mulheres traídas se unem contra o cara que enganou as duas. “A resposta é simples”, elas cantam. “Ele é o culpado”. E nessa mesma era, Bey viajou pelo mundo com uma turnê, cuja banda toda era formada por mulheres, a Suga Mama.

A era “I Am… Sasha Fierce” pode não ser a mais inspiradora de todas, mas tem o seu valor. Aqui, Beyoncé apresenta seu alter-ego Sasha Fierce, que segundo ela, era a responsável por sua persona efusiva e auto-confiante que demonstra ser nos shows. Foram lançados dois discos, um mais introspectivo e outro mais extrovertido, no qual a artista assume a diva que é. 

Nele, vemos de novo diferentes versões de Queen Bey, que reforça a mensagem de que mulheres não precisam ser apenas uma coisa, mas várias. Elas podem ser românticas, alegres e poderosas, ao mesmo tempo em que podem demonstrar fragilidade e terem medo de ficar sozinhas.

O bacana aqui é perceber que em “If I Were a Boy”, ela canta sobre como ela seria caso fosse um homem: egoísta e infiel. Nesse mundo patriarcal em que vivemos, homens comumente são eximidos de qualquer culpa, são protegidos pelos amigos (e a cultura de estupro ganha muito com isso) e ouvem que “são assim mesmo” quando não se comprometem com suas parceiras. Agora imagine se uma mulher fizesse o mesmo? O que será que aconteceria com ela? Do que ela seria chamada?

E “Single Ladies”, uma de suas músicas mais famosas, é divertida e também carrega um significado. Embora muita gente possa torcer o nariz para uma música que fala sobre querer um marido e nem veja algo empoderador nisso, podemos também pensar duas coisas: 

  1. Você pode ser feminista e querer casar. Uma coisa não exclui a outra e, por isso, está tudo certo em querer pensar na aliança e no vestido branco ao mesmo tempo em que critica o machismo na sociedade. Isso não faz de nenhuma mulher menos feminista.
  2. Quando pensamos na solidão da mulher negra, será que não é justo que ela deseje ver o final feliz que nem sempre consegue? Amor, afetividade e companheirismo são coisas que muitas vezes são negadas a essas mulheres. Por isso, pergunto de novo: por que não é permitido que mulheres negras possam sonhar com um final feliz ao lado de alguém? 

Alguém pode pensar que estou forçando demais a barra, mas essa também é uma perspectiva a ser considerada quando falamos sobre o hit “Single Ladies”.

E então, chegamos ao ano de 2011 e Beyoncé vem com o “4”, que como o próprio nome escolhido para o álbum já diz, é seu quarto disco. Para o lead single, ela escolheu o hino girl power “Run the World (Girls)”, reafirmando mais uma vez sua posição de feminista, ainda que não tenha assumido o título. Aliás, em 2013, ela disse em entrevista à Vogue britânica que se considerava uma “feminista moderna”, o que quer que isso seja.

“Acho que sou uma feminista moderna”, disse a cantora à publicação. “Por que você precisa escolher qual tipo de mulher você é? Por que você precisa se rotular? Eu sou mulher e amo ser mulher. Eu acredito na igualdade e que temos um longo caminho pela frente e que isso é deixado de lado, e é algo que nós fomos condicionados a aceitar”.

A fala pode ser desapontadora para muitas, mas ela mudou sua posição naquele mesmo ano, quando lançou seu álbum auto-intitulado, e promoveu o feminismo em seus shows e apresentações.

Mas de volta ao “4”, ele não foge muito dos temas já explorados por Queen Bey em trabalhos anteriores, e foca muito em uma relação com seu amado e os compromissos que faz para que as coisas deem certo entre eles. Desse mesmo disco saiu “I Was Here”, uma balada na qual a cantora admite querer ser ainda maior do que já é, deixando-assim uma marca no mundo. E, com certeza, ela já conseguiu.

No final de 2013, Beyoncé resolveu fazer diferente do que vinha fazendo (e diferente de qualquer outro artista) e lançou um álbum todo de surpresa. O disco que levava seu nome vendeu quase um milhão de cópias na primeira semana e veio com 14 faixas e 17 vídeos. Aqui nós temos a maior artista viva redefinindo lançamentos e mudando a indústria musical. Com quase 20 anos de trabalho nas costas, é seguro afirmar que ela simplesmente pode fazer o que bem entender. Aliás, essa liberdade para fazer as coisas do seu jeito foi algo que ela sempre buscou.

“Eu trabalhei duro na minha infância para atingir esse objetivo: quando eu fizesse 30 anos, eu poderia fazer o que eu quiser”, disse a cantora à revista GQ no começo daquele ano. “Eu consegui isso. Eu tenho sorte de estar nessa posição, mas sacrifiquei muitas coisas e trabalhei mais duro do que, provavelmente, qualquer pessoa, pelo menos na indústria musical. Por isso, eu preciso me lembrar de que eu mereço isso”.

Quanto ao disco, finalmente tivemos a cantora admitindo ser feminista, inclusive tratando de assuntos referentes às mulheres, como padrões de beleza (“Pretty Hurts”), gravidez (“Blue”), sexualidade (“Partition”) e até o tabu do sexo oral (“Blow”).  E embora a gente a trate feito uma deusa, Beyoncé não quer ninguém achando que ela é perfeita (“No Angel”), afinal, ela mesma admite que tem suas inseguranças (“Mine”) e seus momentos de ciúme (“Jealous”). Até mesmo sua carreira faz parte do novo projeto (“Haunted”) além, claro, da sua relação com o marido Jay-Z (“Drunk in Love”). Mais de 10 anos depois, ela continua “loucamente apaixonada” por ele. Por tudo isso, o disco não poderia ter um nome melhor: Beyoncé.

Com o álbum, ela explorou não apenas novas estratégias e formatos, mas permitiu um novo olhar sobre sua vida e trabalho, e trouxe temas que a tocam diretamente enquanto mulher e negra. Esse é um trabalho que merecia o reconhecimento que o Grammy deixou de fazer, premiando Beck com o Álbum do Ano. Infelizmente, não foi a única injustiça que ela sofreu na premiação.

Quase 3 anos depois, Beyoncé voltou com um novo álbum, o “Lemonade”. Trata-se de mais um álbum visual, que traz 12 faixas e um filme, também lançado de surpresa. Com o novo projeto, a cantora ultrapassa a própria excelência que estabeleceu com seu trabalho anterior, dessa vez tratando abertamente da traição de seu marido. Ao mesmo tempo, ela abordou questões específicas envolvendo mulheres negras e identidade negra, criando uma obra atual e relevante ao contexto no qual está inserida.

Em 2016, o republicano Donald Trump disputava a presidência dos Estados Unidos, e com sua retórica separatista e preconceituosa, forçou artistas a se manifestarem politicamente. Ou pelo menos artistas negros, que viram o perigo de retrocesso após a administração de Obama e uma possível presidência de Trump.

Beyoncé foi uma delas, trazendo para o público e seus fãs um trabalho consistente, que conversa com o que é ser negro nos dias hoje, principalmente o que é ser mulher negra atualmente. Com críticas praticamente unânimes da mídia, era possível esperar que “Lemonade” levasse Álbum do Ano no Grammy Awards. Não foi o que aconteceu de novo. Mas será que Queen Bey realmente precisa que o Grammy reconheça seu o valor? Obviamente, a premiação continua sendo a mais importante da indústria musical americana, mas o que mais o famosos gramofone dourado pode conceder a ela que a Beyoncé ainda não tenha alcançado? Ela já é a maior artista viva e a evolução do seu trabalho só comprova isso.

E com o lançamento de “Apeshit”, ela continua demonstrando que tem muito a oferecer, principalmente quando utiliza sua plataforma para incentivar minorias a terem orgulho de quem são e a lutarem por seus direitos. 

Por tudo isso, perdoe-me pelo clichê, mas até clichês carregam alguma verdade: quem manda no mundo? Beyoncé.