“Aniquilação” tem um elenco forte e diverso, mas também tem problemas com apagamento de minorias

20. Março 2018 Cinema 0
“Aniquilação” tem um elenco forte e diverso, mas também tem problemas com apagamento de minorias

Depois do sucesso de “Ex Machina: Instinto Artificial”, filme indicado ao Oscar, a nova empreitada do diretor Alex Garland na sétima arte é “Aniquilação”, que chegou à Netflix.

A produção narra a expedição de um grupo de cientistas à Área X, uma região coberta por uma substância chamada de “Brilho”, e cujo local é habitado por estranhas criaturas. As cientistas são lideradas por Natalie Portman, que tem ao seu lado Jennifer Jason Leigh (“Os 8 Odiados”), Gina Rodriguez (“Jane, The Virgin”) e Tessa Thompson (“Thor Ragnarok”).

A princípio, a produção seria lançada mundialmente no cinema, mas somente as salas americanas viram o longa ganhar as telas. A Paramount, responsável pela obra, vendeu os direitos para a Netflix, após resultados ruins em testes feitos com o público, o qual considerou o filme “muito intelectual”. Em outras palavras, o estúdio acreditou que o longa não venderia, o que criou um mal estar com o próprio Alex Garland, que disse ter feito “Aniquilação” para ser visto no cinema.

Mas esse não foi o único problema com o filme: ele é mais um apagar minorias étnicas de cena.

“Aniquilação” parece ser a obra cinematográfica que todos estávamos esperando: ele é protagonizado por mulheres, com Natalie Portman no papel principal, e um elenco bem diverso (Tessa Thompson, Gina Rodriguez, Oscar Isaac e Benedict Wong e David Gyasi), o que por si só é uma vitória em meio a um cenário branco e masculino em Hollywood.

Porém, as etnias de duas personagens foram apagadas. A personagem de Natalie Portman é de origem asiática, segundo o livro “Autoridade”, que é uma sequência de “Aniquilação”, no qual o filme se baseia. Escrita por Jeff VanderMeer, a personagem tem “sobrancelhas grossas e escuras, um nariz um pouco curvado (foi quebrado uma vez, quando ela caiu nas pedras) e bochechas altas, que têm relação com a forte herança asiática de um lado da família dela”. E ao olharmos para Natalie Portman, ela não se parece com a descrição do livro.

Já a personagem de Jennifer Jason Leigh é descrita em “Autoridade” como sendo de origem americana e indiana, o que não se parece em nada com a atriz. Vale dizer que, no primeiro livro, os nomes e as etnias de cada personagem não são revelados pelo autor.

E de quem é a culpa pelo whitewashing? Ao decidir levar as páginas do livro para as telonas, Alex Garland afirmou que nunca teve a intenção de apagar nenhuma minoria, apenas queria contar uma boa história. Ele alegou, também, que não leu a sequência de “Aniquilação”. 

“Eu não sabia dessas coisas. Não é da minha natureza apagar ninguém. Esse não sou eu”, disse o cineasta ao Nerdlist. “Eu li o livro e o adaptei, pois eu achei que o livro era maravilhoso. E eu pensei: ‘não sei exatamente como adaptar isso, mas tenho uma ideia’. E eu a segui. Foi isso”. 

O diretor também afirmou que não houve pressão alguma para escolher atrizes brancas para os papéis principais.

“Eu escolho o elenco de acordo com os atores que eu encontro durante esse processo de escolha, ou com base nos atores com quem já trabalhei anteriormente. Não houve pressão do estúdio para escolher brancos. As decisões de elenco foram todas minhas. Como um homem branco de meia-idade, eu acredito que eu possa ser culpado por um racismo inconsciente, de maneira que todos nós potencialmente somos. Mas não há nada cínico ou de conspiração na escolha de elenco do filme”.

Quem mais não sabia que a personagem principal tinha origens asiáticas é a própria Natalie Portman. Questionada pelo Yahoo! Entertainment, ela admitiu que a situação é “problemática”, mas que não tinha conhecimento sobre ela.

“Eu não sabia disso. Estou ouvindo isso pela primeira vez. É problemático, mas não soube disso antes”, comentou a artista. “Nós precisamos de mais representações de asiáticos, hispânicos, negros, mulheres, e mulheres de minorias étnicas em particular, como as nativo-americanas. Quero dizer: não há representação o bastante. E, além disso, essas categorias como ‘branco’ e ‘não-branco’, elas são classificações imaginárias, mas que possuem consequências reais. Eu espero que isso comece a mudar, porque acho que todos estamos ficando mais conscientes disso, o que pode trazer uma mudança”.

O apagamento de minorias levou a organização Media Action Network for Asian Americans and American Indias in Film and Television (MANAA), que defende a representação de asiáticos na mídia, a protestar contra o filme.

“O roteirista e diretor Alex Garland não está sendo honesto com as personagens do livro”, afirmou Alieesa Badreshia, membro da MANAA. “Ele explora a história, mas falha em aproveitar as verdadeiras identidades de cada personagem. Hollywood raramente escreve papéis proeminentes para asiáticos e indianos, e esses papéis poderiam impulsionar as carreiras das mulheres dessas comunidades”.

Jeff VanderMeer, autor da saga “Aniquilação” não demonstrou preocupação com a escolha de Natalie Portman e Jennifer Jason Leigh nos papéis principais. Mesmo sem falar diretamente sobre o assunto, o escritor se limitou a dizer que “nunca esperei ou quis uma adaptação fiel de Garland, apenas uma que fosse boa”.

É positivo que tenhamos (mais) um filme protagonizado por mulheres, especialmente em papéis de cientistas (o que raramente ocorre), mas também é decepcionante que minorias étnicas sejam apagadas no meio do processo. Fica aqui a esperança de que isso não se repita no futuro. E que alguém leia a continuação do livro.