Andrew Garfield diz que é “gay, mas sem o ato físico”. Ah tá.

Andrew Garfield diz que é “gay, mas sem o ato físico”. Ah tá.

Eu gosto muito do Andrew Garfield. Mesmo que a sua versão do “Homem-Aranha” não esteja entre meus filmes favoritos, tenho certo carinho pelo ator. É por isso que fiquei um tanto decepcionado nessa semana, quando ele disse em um painel que se considera “gay, mas sem o ato físico”.

Explico: para quem não sabe, o artista está em uma peça de teatro chamada “Angels in America”, uma releitura da obra de mesmo nome de Tony Kushner. Garfield interpreta Prior Walter, um homossexual com HIV, em meio a década de 80, quando a epidemia matou milhares de pessoas da comunidade LGBT (e quando se dizia que essa era uma “doença gay”, uma noção completamente equivocada, mas ainda muito espalhada até hoje).

Na última segunda-feira (3), o ator participou de um evento, onde falou sobre seu processo de preparação para o personagem.

“Todo domingo, oito amigos e eu assistíamos cada temporada de ‘RuPaul’s Drag Race’. Cada uma delas”, afirmou. “Essa é a minha vida fora da peça: eu sou gay hoje, mas sem o ato físico. É isso”.

E em seguida, esclareceu que não é gay.

“Até onde eu sei, não sou gay. Talvez eu tenha um despertar em outra época da vida, que tenho certeza que será maravilhosa e eu poderei explorar essa parte do jardim. Mas, agora, eu estou isolado na minha área, o que é maravilhoso também”.

Acredito, com todo meu coração, que Andrew Garfield tinha boas intenções ao fazer seu comentário. Porém, é de muita insensibilidade ele dizer que é “gay, mas sem o ato físico”, pois é muito confortável para um homem hétero se dizer homossexual, mas não querer levar consigo todo preconceito que temos de enfrentar diariamente. Quem é gay não consegue simplesmente deixar a homofobia para lá. Elas nos acompanha para onde formos e está presente em todos os dias de nossas vidas. Não há uma pausa ou descanso.

É um discurso similar ao de James Franco, que uma vez disse que era “gay em sua arte”, como se isso tornasse seu trabalho vanguardista de alguma maneira. Ou como se a orientação sexual fosse removível após tirar o crachá da empresa. Não é assim que funciona. Aliás, muitos homossexuais perdem seus empregos simplesmente por serem homossexuais. São discursos problemáticos, pois não levam em conta o privilégio que é ser heterossexual.

Além disso, assistir “RuPaul’s Drag Race” não torna ninguém gay. É, sim, um programa muito popular entre homossexuais, mas não é o que define toda uma população. E não é porque ele está interpretando um personagem homossexual que isso faz com que ele entenda o que é ser homossexual e todas as implicações de ser assim.

Ser gay não é uma fantasia. Não é assistir a “RuPaul’s Drag Race” todos os domingos. Ser gay é ótimo, mas envolve muita luta, resistência e paciência para lidar com homens heterossexuais que acham que sabem o que somos, mas sem querer abandonar seus privilégios. Vou continuar gostando de Andrew, mas espero que ele mude esse pensamento.


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