Anavitória tem o peito cansado, mas mantém o otimismo em “O Tempo é Agora”

01. outubro 2018 POP 0
Anavitória tem o peito cansado, mas mantém o otimismo em “O Tempo é Agora”

Quando lançaram em 2016 seu primeiro disco, Ana Caetano e Vitória Falcão cantavam sobre o amor na forma mais doce, ingênua e idealizada possível. Em “Anavitória”, o primeiro trabalho do duo, tudo eram flores – ou trevos de quatro folhas – , sorrisos e a ansiedade pelo encontro com o outro. Dois anos depois, com “O Tempo é Agora”, o peito dessas meninas do interior do Tocantins ficou cansado, os pés tocaram o chão, mas o otimismo se manteve.

Já na primeira faixa, “Ai, Amor”, as duas deixam claro que o amor continua sendo o personagem principal de suas canções, porém, elas demonstram que o sentimento nem sempre cura, mas machuca e dói também. “Ei, fiz questão da promessa lembrar/tu jurou minha mão não soltar/e se foi junto dela”, elas cantam logo no início, em um ritmo alegre e leve, que pode até enganar quem não ouvir com atenção os versos. No geral, o tema do coração partido permeia boa parte do material, como na dura e soturna “Cecília”, na qual Ana e Vitória cantam acompanhadas de um piano sobre uma paixão que terminou e admitem com enorme pesar que a ruptura era mesmo o melhor caminho.

“O Tempo é Agora” é uma evolução para o último trabalho de Anavitória, que ficou famoso ao falar sobre um amor açucarado com um violão em mãos e melodias que misturavam o pop e o folk. É verdade que o violão permanece nas mãos de Ana, a metade compositora do duo, mas elas exploram novos instrumentos, como o piano e a guitarra, que acabam conferindo um novo som às músicas do duo.

Como dito anteriormente também, o disco é mais maduro em termos líricos: a inocência e a fantasia deram lugar à realidade e à experiência de quem já vivenciou o amor na sua forma mais gostosa e dolorida. Anavitória não idealiza mais seus interesses românticos e não quer ser idealizado, como declara em “Calendário”: “Não se arrisque em tentar/me escrever nas suas melhores linhas/eu não preciso de altar, só vem/repousa a tua paz na minha”. Na mesma música, elas falam com saudade de quem já foi, mas que esperam voltar um dia. “Te guardo solto pra se aventurar/é tão bonito te espiar viver/se encontra, se perde, se vê/mas volta pra se dividir, amor/é que você fica tão bem aqui/é que você fica tão bem aqui comigo”.

Essa mesma saudade se faz presente na faixa de início, “Calendário”, “Canção de Hotel” e “Dói Sem Tanto”, esta sendo a penúltima, e que traz uma certa tristeza pelo fim do relacionamento, ao mesmo tempo em que traz uma certa gratidão ao recordar os bons tempos, se assim é possível dizer. Na canção, Anavitória recorda o passado com doçura: a ausência é sentida, mas as lembranças não são amargas. Se o fim era mesmo inevitável, que fique então o que era bom e fazia o coração pulsar com alegria.

E por falar em alegria, ela também é sentida em “Porque Eu Te Amo”, “Outrória”, na sensual “A Gente Junto”, “O Tempo É Agora” e “Preta”. A primeira talvez seja a música que mais se conecte com o primeiro álbum do duo, já que tanto a estrutura e ritmo quanto a letra remetem ao material homônimo. E isso não é ruim, apenas uma demonstração de que, embora estejam se arriscando em novas áreas, a essência permanece a mesma. Já “Outrória” é especial e uma das melhores faixas do disco, apresentando um colaboração de Ana e Vitória com a banda OutroEu (daí o nome da canção). Mike Túlio, vocalista do grupo, é namorado de Ana, o que torna possível pensar que a música seria uma forma de materializar os sentimentos entre eles.

Vale destacar “Cecília” e “Preta” duas músicas que falam sobre relacionamentos com outras mulheres. Tanto Ana quanto Vitória não falam sobre a vida íntima de cada uma, mas quem assistiu ao filme “Ana e Vitória”, do qual as duas são protagonistas em uma história que reconta de certa maneira a trajetória das duas, vê ambas se relacionamento com homens e mulheres. Se elas são bissexuais, é impossível afirmar, mas é bonito vê-las cantando de maneira tão aberta e livre sobre o amor entre duas mulheres. “Preta” é ainda uma das melhores músicas, na qual Ana chega a brincar e rir nos versos.

“Se Tudo Acaba” encerra a experiência musical do álbum, lembrando a todos da brevidade da vida e dos encontros. “O Tempo é Agora”, faixa que dá nome ao disco, é a mais positiva – e que destoa das outras músicas. A escolha dela para carregar o título do trabalho talvez se deva por representar o momento atual de Anavitória: animado e entusiasmado com o presente, que é onde as mentes e os corações de suas cantoras querem estar. E onde os nossos deveriam estar também.