O novo filme de Amy Schumer deveria ser empoderador, mas nós temos algumas dúvidas

15. Fevereiro 2018 Cinema 0
O novo filme de Amy Schumer deveria ser empoderador, mas nós temos algumas dúvidas

Na semana passada, a atriz e comediante Amy Schumer liberou o trailer de seu mais novo filme, “I Feel Pretty”. É uma comédia com uma premissa interessante e até inspiradora: uma mulher que se sente a mais feia do mundo, em um passe de mágica, começa a se sentir a mais linda de todas. E isso não é tudo: ela ainda colhe vários benefícios dessa recém adquirida auto-confiança.

Parece uma ideia bacana, não? E é isso o que Amy quer que nós tiremos da produção, na qual ela é Renee Barrett, cujo único desejo é ser “indiscutivelmente linda”. É exatamente isso o que ela consegue, exceto que não é o mundo que deixa de questionar o seu valor pela sua aparência, mas a própria personagem, após bater a cabeça em uma aula na academia. Nem mesmo o olhar torto de Naomi Campbell faz Renee deixar de acreditar que pode ser uma modelo.

Em entrevista à apresentadora Ellen DeGeneres, a atriz falou um pouco mais sobre sua personagem.

“Minha personagem Renee tem baixa autoestima e quer muito ser bonita e sentir as portas da vida se abrindo para ela. Então, eu caio da bicicleta ergométrica e começo a me ver como uma modelo”, disse a artista. “Eu continuo exatamente a mesma, mas na minha cabeça, eu sou a Gisele [Bündchen], uma das Jenner-Kardashians: maravilhosa. Aí, as coisas começam a acontecer. É um doce e divertido filme, que eu acho que vai nos fazer sentir melhor. Me fez bem fazer papel”.

É uma premissa interessante, mas nós temos algumas dúvidas sobre “I Feel Pretty” e sua mensagem “empoderadora”. A começar pelo fato de que é preciso acreditar que Amy Schumer é uma mulher completamente fora dos padrões. Talvez você não ache que ela possua a aparência que se espera de uma mulher em Hollywood, mas ela não está totalmente fora do que é socialmente considerado belo.

Veja bem: a artista é branca, loira, cisgênera, não possui nenhum tipo de deficiência e possui um corpo que deve ter no máximo dois ou três ‘pneuzinhos’. Com isso, como é possível comprar que a ideia de que Amy Schumer não está dentro dos padrões? Claro, mulheres sofrem uma grande pressão para se adequarem a padrões estéticos nocivos, mas não é como se a atriz estivesse tão fora deles.

A comediante Sofie Hagen fez críticas ao filme, incluindo sobre como a narrativa é construída.

“Que tal, em vez de ‘bater a cabeça e machucar seu cérebro’ para que se torne tão iludida a ponto de achar que ela era bonita DE VERDADE, ela lesse sobre capitalismo e percebesse que a baixa autoestima feminina é uma arma do patriarcado e que ela merece amor próprio”, escreveu a artista. “Quero dizer, ela bate a cabeça e se sente linda. Esse filme precisa se tornar ficção científica para ser realista. Somente em um universo mágico ela poderia se sentir bonita. Ela, que é loira, branca, magra, feminina, cis, tem todas as coisas e ainda não é considerada bonita”.

Vale dizer que Amy Schumer e toda e qualquer mulher que se pareça com ela ou não podem, sim, sentir que são feias e que tenham problema com a autoestima. De forma alguma é injusto diminuir o que essas pessoas sentem. Ainda assim, é preciso levar em consideração o que sentem e a forma como a sociedade as enxergam.

Tradução: “Eu entendo que há pessoas que se parecem exatamente como a Amy Schumer e se sentem feias e pouco atraentes. Mas isso não muda o fato de que essas pessoas serão tratadas de forma melhor pela sociedade do que alguém que é gordo de verdade, que não é branco, que não é feminina”.

Em conclusão, será que o filme realmente promove uma mensagem inspiradora? Ao que parece, partindo do pressuposto de que uma mulher com o corpo de Amy Schumer não deveria se sentir bonita a menos que ela bata forte com a cabeça no chão, todas as mulheres iguais a ela ou maiores deveriam se sentir horríveis.

A intenção de “I Feel Pretty” é boa, mas mulher nenhuma deveria se ferir – de qualquer maneira – para se sentir bonita. Ainda estamos construindo um mundo em que todos os tipos de corpos e raças sejam aceitos e sejam considerados belos e válidos, e sinto que o filme de Amy Schumer vai na contramão disso.

Mas em defesa da atriz, seu filme só estreia no dia 5 de julho no Brasil, o que significa que é possível que a produção vá mais a fundo do que os quase 3 minutos de trailer nos fazem acreditar. Indo além, há quem acredite, também, que a personagem de Amy, Renee, representa a mulher comum, cujas experiências também são válidas. Ou seja, elas também têm o direito de não se sentirem bem com suas aparências (e isso deveria se aplicar à amiga de Renee, que é magra e sente-se insegura com sua aparência, e ouve da protagonista: “eu quero bater em você agora”).

De qualquer maneira, talvez esse seja mais um caso de esperar para ver. Qual a sua opinião sobre a prévia de “I Feel Pretty”?