Ainda é difícil falar sobre aborto na televisão

Ontem à noite, 28, foi ao ar o Profissão Repórter, da Rede Globo, com a promessa de discutir o aborto. Geralmente, eu gosto do programa, pois ele toca em vários assuntos ditos “polêmicos”. Porém, o que foi visto passou longe de esclarecer a população acerca do tema. Confira a reportagem aqui.

profissao_reporter

Acredito que todos os argumentos contra a realização do aborto já existem, e ainda são reforçados por uma legislação machista, que obriga a mulher a seguir com uma gravidez indesejada. No Brasil, a prática só é permitida em caso de estupro, caso a gravidez traga riscos à vida da mãe e quando o feto apresenta problemas graves de formação. Fora isso, se a moça engravidou, o Estado dá “boa sorte” para ela. E, muitas vezes, o homem também.

O programa falhou em dar mais espaço para os argumentos a favor do aborto. Apelar para a dor dos familiares, freiras e um pastor para desencorajar as mulheres a realizarem a prática é muito baixo. O programa ganharia muito mais se desmistificasse o aborto. Mas não, caiu no senso comum de jogar a culpa em cima da vítima.

Quando finalmente a importância da legalização chega, afinal, é um produto jornalístico, logo precisa aparentar “imparcialidade”, são poucos minutos, num programa de meia hora, que deu espaço, cara e voz aos argumentos já conhecidos. Um desserviço total. Todos estamos cansados de ouvir as mesmas coisas sobre aborto. Agora, e o outro lado? Por que o outro lado continua sem voz? Aborto é questão de saúde pública: mulheres estão morrendo em casa, em clínicas clandestinas e em hospitais após realizarem o aborto.

Cenas do documentário 'Clandestinas'
Cenas do documentário ‘Clandestinas’

Mulheres abortam por diversos motivos e é direito delas decidirem se querem seguir com uma gravidez ou não. Não é uma questão de opinião. “Quem mandou não se cuidar?” “Não foi bom? Agora aguenta”, são só dois exemplos de argumentos que culpam a mulher por sua sexualidade. Nós, homens, estamos isentos de culpa, mas a mulher… Quem mandou querer ser livre, né? Pessoas falham, métodos contraceptivos falham e, mesmo assim, só uma pessoa é a culpada: a mulher.

Portanto, o “Profissão Repórter” deixou muito a desejar no programa de ontem à noite. O lado conhecido do aborto não precisaria de um programa inteiro para reforçar o que já é sabido. O outro lado, o lado “clandestino” é que precisaria ser explorado.

Aproveitando, no fim do programa, quando finalmente temos os argumentos a favor da prática, trechos do documentário “Clandestinas”, escrito por Renata Corrêa, são apresentados. É um documentário com mulheres e atrizes, mas todas com histórias reais de aborto. Vale a pena conferir e entender mesmo porque as mulheres fazem aborto.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *