Agora é que são elas?

06. novembro 2015 Internet 0
Agora é que são elas?

Esta semana começou uma campanha para que colunistas homens cedam seus lugares para mulheres escreverem ou produzirem qualquer outro tipo de conteúdo nestes espaços. Acompanhada da tag #AgoraÉQueSãoElas, várias mulheres estão tendo voz em colunas, sites, podcasts, blogs, vlogs e portais de notícia. Leonardo Sakamoto, por exemplo, cedeu toda a sua semana para publicações importantes de várias ativistas feministas. Jean Willys e Gregório Duvivier também.

Idealizada por Manoela Miklos e várias outras mulheres, a campanha surge em um momento de tensão e de muita discussão. Além da prova do ENEM, das reações descabidas de alas conservadoras, tivemos Eduardo Cunha espoliando as mulheres de direitos básicos e atendimento médico, ataques a páginas feministas no Facebook, como a da Jout Jout, mulheres sendo expostas cotidianamente em páginas misóginas e racistas, como Stephanie Ribeiro.

Ao apoiar a campanha os homens cedem seu espaço para que mulheres possam falar da opressão e violência que sofrem. Alguns destes espaços contam com milhares de leitores e seguidores e é bastante positivo que os colunistas e produtores de conteúdo deixem que as mulheres falem por si e não que eles mesmos falem de algo que não os atinge diretamente.

Quando coloquei a interrogação ao lado da frase que intitula o post e a campanha é porque é preciso fazer uma ressalva. Agora é que são elas ou agora é que eles estão nos vendo? Porque pelos textos que vi até agora, as ativistas estão há anos produzindo conteúdo, anos de uma produção invisível, pois a voz das mulheres sempre é menor.

Agora eles estão nos vendo ir às ruas para protestar contra a misoginia estatal de Eduardo Cunha, que não se preocupa com a vida das mulheres, nem tem qualquer empatia pelo estupro que essas mulheres sofrem. Agora eles estão vendo a influência de anos de militância na vida real, mas principalmente na internet, refletindo numa avaliação nacional, o ENEM e obrigando 7 milhões de jovens a pensar sobre a violência contra a mulher e porque ela persiste.

Laura Buu e o Anticast 198 causaram uma verdadeira revolução na internet em 2015 ao dar nomes aos bois no que se refere ao machismo e misoginia na internet e no meio nerd, a perseguição contra mulheres produtoras de conteúdo, a invalidação de nossos discursos e até a total desistência de algumas mulheres em manter seus portais e blogs. Poucos anos atrás este tipo de movimento não teria sido possível. Produtores de conteúdo não podem se eximir de responsabilidade na forma como influenciam seu público e temos visto cada vez mais mudanças de postura de grandes portais, como o próprio Anticast e o Judão.

Ocupar estes espaços de colunistas, podcasters, blogueiros, vlogueiros é importante, mas não é o fim de todos os males. É mais uma engrenagem em uma imensa máquina de revolução que vem acontecendo nos últimos anos, onde cada vez mais homens estão pondo a mão na consciência para avaliar a sociedade em que estão inseridos e parando para ouvir o que as mulheres têm a dizer, apoiando nossas pautas, desconstruindo uma vida erguida sobre os preconceitos que a sociedade erigiu. Acabou a semana do #AgoraÉQueSãoElas? Continue seguindo o trabalho destas mulheres, destas ativistas, gente que tem muito o que dizer e com as quais você pode aprender muito.