A quinta temporada de “Orange Is The New Black” ensina uma lição sobre privilégio branco e racismo

A quinta temporada de “Orange Is The New Black” ensina uma lição sobre privilégio branco e racismo

[O TEXTO CONTÉM SPOILER DA QUINTA TEMPORADA DE “ORANGE IS THE NEW BLACK”]

Desde seu primeiro episódio, “Orange Is The New Black” lida com diversas questões, como o funcionamento do sistema prisional, racismo, sexualidade, desigualdade de gênero etc. Talvez, nem sempre o seriado acerta (como a forma em que a morte de Poussey aconteceu), mas é fascinante como a série possui personagens femininas tão complexas e humanas, diferente de muitas produções que vemos no cinema ou na televisão.

Uma dessas mulheres é, com certeza, Janae Watson (Vicky Jeudy), apresentada ainda na primeira temporada. Ela faz parte do grupo de Taystee (Danielle Brooks), mas diferente das outras meninas, ela é mais reservada, não gosta de receber ordens e não é de fazer muitos amigos.

Em um dos episódios, conhecemos melhor a história dela, que era uma aluna brilhante em sua escola e uma excelente atleta, com chances de ter um futuro promissor. Porém, suas habilidades tornavam difícil para que ela tivesse uma vida de adolescente normal, já que os meninos nunca demonstravam interesse por ela (“pare de se exibir”, eles diziam). Basicamente, ela acabou entrando na penitenciária de Litchfield depois de se envolver com um cara péssimo, em uma tentativa de se adequar ao que esperam de uma garota.

E na quinta e atual temporada de “OITNB”, temos mais um olhar sobre seu passado, no episódio 5, chamado “Canta, Effie”. O episódio visa explicar o desconforto de Janae com seu grupo, que escolhe a rica, branca e apresentadora de televisão Judy King (Blair Brown) para ler a lista de exigências das detentas para acabar com a rebelião que começaram logo no início dessa temporada. Contudo, o capítulo oferece uma brilhante lição sobre privilégio branco e apropriação cultural.

Mais uma vez, vemos em flashbacks como Watson era uma menina que poderia ter um futuro diferente dos seus colegas. Até que ela faz uma visita com a escola a um colégio de elite, repleto de alunos brancos. Ali, ela começa a perceber as diferenças entre a sua realidade e daqueles jovens: eles possuem todos os recursos disponíveis (financeiros e educacionais) para poder realizar o que quiserem na vida, enquanto ela e as crianças negras com quem estuda terão de se esforçar duas ou três vezes mais para tentar tornar seus sonhos realidade.

Logo nesse momento, ela começa a entender que um futuro cheio de oportunidades não seria para ela, pois ela não tem os mesmos meios para ir longe. É aí que ela percebe que o racismo já está mostrando qual seria o seu lugar na sociedade – e não seria junto daquelas crianças brancas.

E se isso não fosse o bastante para mexer com sua auto-confiança, Janae é convidada para assistir a um ensaio do musical “Dreamgirls”, que será protagonizado por três garotas brancas, uma delas ainda com uma peruca afro. Para quem não sabe, esse espetáculo da Broadway possui três mulheres negras nos papéis principais: Effie White, Deena Jones e Lorrell Robinson.

Então, isso nos leva a fazer a mesma pergunta que Watson faz ao olhar para o palco: “estão fazendo ‘Dreamgirls’?” Por que uma peça de teatro feita para e sobre pessoas negras está sendo protagonizada por pessoas brancas? Esse é mais um exemplo de apropriação cultural: até mesmo quando a obra é negra, ela é refeita para e sobre pessoas brancas, sem nem ao menos dar o devido crédito a quem a criou. Pelo contrário, temos até uma caricatura de uma negra feita por uma garota branca. 

Isso leva a jovem Janae às lágrimas. E não porque a performance da menina em questão é ruim, mas por ela estar ocupando o lugar de uma negra. De novo, o racismo apaga o brilhantismo de pessoas negras, as quais vêm seus espaços sendo ocupados e usurpados por brancos. E ao vê-la chorando, a colega branca que mostrou todo o colégio para ela, cega por seus próprios privilégios, acredita que Watson está emocionada com a apresentação, quando ela está sentindo na pele o peso do racismo. Ela tem apenas 14 anos e já está exausta de tanto preconceito.

O episódio é tocante, e nos coloca nos sapatos daquela menina negra, que sentia que podia conquistar o mundo, e agora já não tem mais certeza até onde pode ir. Isso a torna a mulher reservada e rebelde que é, pois ela sabe que o sistema estará sempre jogando contra ela e contra as pessoas como ela, enquanto estará beneficiando de alguma maneira os brancos.

E isso explica o motivo pelo qual ela não quer ver Judy King fazendo as demandas das detentas, pois aquela não é a realidade dela. Aquela mulher branca não pode falar sobre problemas que nunca vivenciou. É preciso, e é justo, que as negras falem por si, que tenham suas vozes escutadas, o que acontece assim que Taystee toma a frente da situação.

“Nossa luta não é contra Judy King”, ela diz. “Nossa luta é contra um sistema que não dá a mínima pra quem é pobre, quem é negro e quem é pobre e negro”. 

Se você ainda não começou, eu sugiro começar a ver “Orange Is The New Black” logo.


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