A protagonista e a ‘mulher ideal’

A protagonista e a ‘mulher ideal’

Nas últimas semanas, um vídeo de testes de audição para o papel de uma ‘protagonista’ para um filme viralizou nas redes sociais. Trata-se de um curta-metragem de comédia, o qual traz as atrizes Felicity Jones (“Star Wars: Rogue One”), Emilia Clark (“Game of Thrones”), Lena Headey (“Game of Thrones”), Gemma Chan (“Transformers: O Último Cavaleiro”), Florence Pugh (“O Passageiro”), Stacy Martin (“Rosy”) e Wunmi Mosaku (“The End of the Fucking World”) fazendo testes de elenco para a personagem principal de um filme.

A obra foi produzida por Gemma Arteton (“Faces de Uma Mulher”), que interpreta uma diretora de elenco ao lado de Catherine Tate (“Doctor Who”) e Anthony Welsh (“Castelo de Areia”). No vídeo exibido pela BBC, antes de fazerem o teste, as mulheres são perguntadas sobre o que acharam da personagem, e logo dizem animadas que adoraram o que leram, e a consideram combativa, ousada, uma líder, inteligente, o que é exatamente o contrário do que os diretores de elenco querem. “Você sabe que estamos falando da protagonista, certo?”, diz Catherine Tate, já demonstrando uma divergência de opinião: para ela, não faz sentido que a protagonista seja tão cheia de si, basta ela ser bonita.

E é aí que cada uma das atrizes começa a interpretar a personagem, apenas para serem interrompidas logo de cara. Para Emilia, que quer fazer uma cena dramática e com choro, é dito para que ela “sorria mais”. Ela pode chorar, mas não muito. Ou chore de uma maneira sensual, mas sem esquecer do sorriso. Para Stacy, os diretores dizem que é preciso que ela use maquiagem, pois a protagonista precisa estar bonita. Já Felicity precisa tirar sua roupa, pois a protagonista é uma médica que trabalha em um hospital sem energia e o calor a obriga a ficar nua para para realizar uma cirurgia.

Para Florence, o pedido é para que ela perca peso, já que a personagem foi pensada como magra, com grandes peitos e quadris largos, mas não tão largos. Também é preciso que ela interprete uma moça que nunca transou na vida, mas que está desesperada por sexo, porém, não muito. “Não é muito difícil: o que estamos pedindo para você ser magra e com curvas, sensual e inocente”, diz Catherine. “Pense em uma virgem prostituta, com peitos e quadris, mas não muito largos”, completa Gemma Arteton. “Ela nunca transou, mas quer muito isso”. Já a Gemma Chan é interrompida com um pedido absurdo: a atriz é de origem asiática e ouve se pode “ser mais… branca”. 

Lena Headey, a Cersei de “Game of Thrones” nem pode interpretar o texto, pois os três diretores não querem uma mulher mais velha no papel de protagonista. “Queremos uma protagonista, não a mãe dela”, diz Anthony. A última, Wunmi Mosaku, também não pode fazer o teste, somente por ser negra. Aliás, quando ela chega na sala, o trio de diretores acham que ela é quem serve o café. Quando diz que está ali para o papel, Anthony, Cate e Gemma a ignoram, até que ela se vê obrigada a sair. Por fim, Tom Hiddleston chega para a audição, mas nem precisa abrir a boca: o papel da protagonista já é dele.

Gemma Arteton, produtora do curta, contou ao jornal Los Angeles Times que a ideia para o filme surgiu da atriz Felicity Jones, em um dos encontros promovidos pelo movimento Time’s Up.

“Eram só mulheres conversando. Nós sentimos que era tudo muito sério”, disse à publicação. “Muitos problemas foram ditos. Sentimos que seria fantástico fazer algo leve e cômico, que transmitisse a mensagem sem ofender ninguém. Havia muitas mulheres criativas e lindas ali, e qual maneira melhor de fazer a diferença do que todas se unirem e fazer alguma coisa? Pessoalmente falando, essa é uma das melhores coisas que saem desses encontros da Time’s Up: conhecer pessoas que eu não conheceria de outra maneira. Por exemplo: Felicity Jones. Nós tivemos uma reunião na minha casa e a Felicity foi quem sugeriu que fizéssemos alguma coisa juntas. Foi muito gentil da parte dela”.

O curta chama a atenção para a forma que Hollywood trata as mulheres, mas também nos faz refletir para o fato de que a protagonista desejada é o mesmo tipo de mulher que a sociedade espera: branca, magra, bonita, jovem, heterossexual, cisgênera e sem opinião. Do contrário, aquelas que não seguirem essas ‘regras’, são excluídas.

E a indústria cinematográfica reforça essa ideia: de acordo com um estudo recente sobre diversidade no cinema, nos 100 maiores filmes de 2017, somente 31,8% dos personagens eram mulheres, as quais protagonizaram 33 dessas obras. E isso não é tudo: dessas 33 mulheres, somente 4 eram de minorias étnicas e 5 tinham mais de 45 anos. A idade e a raça são fatores imperativos na contratação de atores em Hollywood – especialmente para as mulheres. Enquanto os homens conseguem trabalhos ao ficarem mais velhos, as mulheres vão perdendo oportunidades. E no que diz respeito à cor, mulheres de minorias étnicas são apagadas assim como acontece no curta-metragem acima: 43 dos 100 grandes filmes de 2017 não tinham uma mulher negra, 64 deles não tinham nenhuma latina e 65 não tinham nenhuma asiática. E quando falamos de orientação sexual e identidade de gênero: 94 filmes não tinham nenhuma personagem lésbica, bissexual ou trans. Também vale dizer que mulheres com algum tipo de deficiência ficaram de fora de 78 das produções do ano passado.

É importante fazer esses recortes, pois como grupo, as mulheres são mesmo deixadas de lado, mas é fundamental percebermos que a algumas delas ainda é permitido que sejam vistas, ainda que não tenham as mesmas oportunidades dos homens. Para outras, a exclusão é imperativa. E não há como alcançarmos uma sociedade igualitária enquanto houver pessoas deixadas para trás.

Mas esse ‘modelo ideal’ de como uma mulher é não é apoiado exclusivamente por Hollywood: revistas femininas também fomentam essa expectativa nociva de como uma mulher deve ser. Como um todo, a mídia ainda não permite que as mulheres simplesmente sejam ou existam como querem. Pelo contrário, há sempre uma ‘dieta milagrosa’ para secar a barriga, fórmulas incríveis para conquistar um homem e cremes e cirurgias que prometem deixar a pele jovem novamente. É como se houvesse uma verdadeira cruzada midiática para controlar corpos e desejos femininos. E isso tudo ainda recebe apoio de empresas e governos, os quais são imensamente comandados por homens, que acabam aprovando políticas conservadoras e que não atendem às necessidades das mulheres. 

Contudo, na contramão disso, as mulheres vem se organizando e se unindo para fazer as mudanças acontecerem. O movimento #MeToo e o coletivo Time’s Up, por exemplo, estão dando dando visibilidade para que mais e mais mulheres possam falar sobre suas experiências e para que possam combater o machismo que as impedem de ascender. Apesar das particularidades de cada mulher, infelizmente a desigualdade de gênero une todas elas. Porém, elas não ficam mais caladas: o momento atual é de combater e virar o jogo.

As expectativas em torno da ‘protagonista’ ainda são muito reais, mas do que depender das mulheres, o controle da narrativa vai mudar de mãos. E quem passará a escrever as histórias serão elas mesmas.