A noite foi das mulheres no Globo de Ouro 2018

A noite foi das mulheres no Globo de Ouro 2018

O Globo de Ouro 2018 aconteceu entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira (8), celebrando os melhores do cinema e da televisão. Mas mais do que isso, foi um evento de celebração às mulheres. 

Nos últimos meses, Hollywood foi tomada por denúncias de mulheres (e alguns homens) contra os poderosos da indústria cinematográfica. O que teve início com as acusações de assédio sexual e estupro contra o produtor Harvey Weinstein levou a uma enxurrada de outras denúncias, demonstrando que o problema existe até mesmo numa indústria conhecida por ser ‘progressista’. Dessa vez, as mulheres resolveram se manifestar e pedir o fim da violência contra elas. E nessa edição do Globo de Ouro, elas fizeram suas vozes serem ouvidas.

A começar no tapete vermelho, repleto de celebridades vestindo roupas pretas. O gesto foi incentivado pelo movimento Time’s Up, criado para ajudar mulheres a denunciar o assédio sexual em todos os cantos dos Estados Unidos. Os artistas atenderam à campanha e o ‘pretinho básico’ ganhou uma nova e poderosa conotação. Os jornalistas também foram além e, ao invés de perguntar a marca dos vestidos, optaram por saber o motivo pelo qual estavam todas usando a mesma cor, forçando uma conversa necessária sobre assédio sexual e abuso de poder no ambiente de trabalho. No evento, também foram utilizados pins do movimento Time’s Up.

E como de praxe, os convidados da premiação puderam levar um acompanhante. Algumas das mulheres levaram ativistas ao evento, sendo cada uma delas de uma etnia diferente. Meryl Streep trouxe ao Globo de Ouro a ativista Ai-jen Poo, diretora da Aliança Nacional das Trabalhadoras Domésticas dos Estados Unidos; a indicada Michelle Williams levou Tarana Burke, criadora do movimento #MeToo; Emma Watson foi acompanhada de Marai Lasai, diretora -executiva de uma organização feminista negra e atua pelo fim da violência doméstica no Reino Unido.

Susan Sarandon, indicada por “Feud”, esteve com Rosa Clemente, uma jornalista independente que luta pelo engajamento político de jovens de minorias étnicas e pelos presos políticos dos EUA; Emma Stone teve a companhia da ex-tenista Billie Jean King, a qual ela interpretou no filme “Batalha dos Sexos”; Shailene Woodley, de “Big Little Lies”, foi com Calina Lawrence, ativista pelos movimentos de proteção às terras indígenas nos EUA.

Amy Poehler levou Saru Jayaraman, que atua por condições melhores de trabalho nos restaurantes dos EUA; e Laura Dern, indicada por “Big Little Lies”, teve ao seu lado Mónica Ramírez, co-fundadora da Alianza Nacional de Campesinas, uma organização que luta pelas trabalhadoras rurais americanas.

O canal E! passou por uma ‘saia justa’ no tapete vermelho. Como todos os anos, ele cobriu a chegada das celebridades à premiação, e algumas delas fizeram questão de lembrar de Catt Sadler. A jornalista se demitiu  da rede, após descobrir que seu colega de trabalho, realizando a mesma função, ganhava duas vezes mais que ela.

Debra Messing foi a primeira a se manifestar. Conversando com Giuliana Rancic, do E!, ela disse: “Fiquei chocada ao saber que o E! não acreditar em pagar suas apresentadoras o mesmo que seus apresentadores. Sinto falta de Catt Sadler”. Além dela, Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Eva Longoria também lembraram da jornalista ao conversarem com Ryan Seacrest. “Nós estamos com você, Catt! Nós apoiamos a paridade de gênero e o pagamento igualitário, e esperamos que o E! também faça o mesmo”.

Solidariedade foi a palavra da noite. E o tapete vermelho nunca ficou tão bonito de preto.

Agora, vamos à cerimônia, que foi comandada por Seth Meyers. “Boa noite, senhoras e senhores que sobraram”, começou o apresentador. “É 2018 e a maconha foi legalizada e o assédio sexual finalmente não é mais. Será um bom ano. […] Para os homens presentes, será a primeira vez em três meses que não será assustador ouvir seu nome ser chamado”. 

Seria um bom ano para que uma mulher liderasse a atração. Meyers fez um bom monólogo de abertura, tocando no assunto do assédio sexual, diversidade, além de cutucar Harvey Weinstein e Kevin Spacey. O apresentador aproveitou para parabenizar as mulheres e ativistas presentes no Globo de Ouro.

“As pessoas que estão aqui trabalharam duro, mas é mais claro do que nunca que as mulheres trabalharam ainda mais. Obrigado pelo trabalho incrível que vocês fizeram e continuam a fazer. Eu aguardo ansiosamente pelo dia que vocês vão nos liderar no futuro. Obrigado por me permitirem dizer isso”, concluiu.

Em seguida, começaram a surgir os premiados da noite. Vale notar que nenhum dos homens vencedores fez qualquer menção aos casos de assédio sexual ou o movimento das mulheres no evento. Dentre eles, é justo, porém, ressaltar a importância da vitória de Sterling K. Brown, o ganhador de Melhor Ator em Série Dramática. Em 75 anos de Globo de Ouro, ele se tornou o primeiro homem negro a vencer na categoria. De novo: o primeiro em 75 anos!

Em seus agradecimentos, ele citou sua esposa e Dan Fogelman, produtor e roteirista da série “This Is Us”.

“Dan Fogelman, você escreveu um papel para um homem negro, que só poderia ser interpretado por um homem negro. E o que eu aprecio muito nisso é que eu sou visto por quem eu sou e apreciado por ser quem eu sou. E isso torna muito mais difícil para me dispensar ou dispensar alguém que pareça comigo. Por isso, obrigado, Dan”.

Nos bastidores, o artista se disse honrado pelo prêmio que recebeu, dizendo que nunca foi “o primeiro em nada”. Ele acrescentou, contudo, que espera que não precise de mais 75 anos para outro negro vencer na mesma categoria.

A Melhor Atriz em Série Dramática foi Elisabeth Moss, de “Handmaid’s Tale”. No palco da premiação, ela fez um dos discursos mais poderosos do evento.

“Isso é da Margaret Atwood [autora do “Conto de Aia”, obra em que seu seriado é baseado]: ‘nós somos as pessoas que não estão nos papéis. Nós vivíamos nos espaços em branco, nos cantos das páginas impressas. Isso nos deu mais liberdade. Nós vivíamos nos buracos entre as histórias’. Margaret Atwood, isso é para você e todas as mulheres que vieram antes e depois de você, aquelas que foram corajosas para se manifestar contra a intolerância, a injustiça, e que lutaram pela liberdade nesse mundo. Nós não vivemos mais nos espaços em branco no canto das páginas. Nós não vivemos mais nos buracos entre as histórias. Nós somos as histórias impressas e estamos escrevendo nossas próprias histórias”.

Esse não foi o único prêmio para “The Handmaid’s Tale”: a produção levou ainda Melhor Série Dramática. Quem pegou o prêmio foi o produtor-executivo do seriado, Bruce Miller, o qual pediu para “todas as pessoas que fazem tudo o que podem para impedir que ‘The Handmaid’s Tale’ aconteça de verdade: continuem fazendo isso”.

“Big Little Lies” foi a grande vencedora da noite nas categorias televisivas. As mulheres de Monterey ganharam Melhor Série Limitada ou Filme para TV, Melhor Atriz em Série Limitada (Nicole Kidman), Melhor Ator Coadjuvante em Série Limitada (Alexander Skarsgård) e Melhor Atriz Coadjuvante em Série Limitada (Laura Dern). 

Nicole Kidman foi a primeira a pegar o prêmio, lembrando a todos que sua personagem Celeste, a qual apanha do marido, era o “centro do movimento dessa noite”. Laura Dern também subiu ao palco e comparou a situação de sua filha na trama, que é agredida por um menino na escola, mas não diz quem bateu nela por medo, com a situação das mulheres no mundo, as quais também escondem o que sofrem por medo.

“Era uma cultura de silêncio e que foi normalizada”, disse. “Eu peço a todos que apoiem não apenas as sobreviventes e as pessoas próximas que tiveram coragem para contar suas verdades, mas que promovam uma justiça reparadora. Que nós também possamos protegê-las e dar empregos a elas. Que nós ensinemos nossos filhos que se manifestar sem o medo da retribuição é a nossa nova cultura e guia”. 

Por fim, Reese Witherspoon prometeu que iria contar as histórias de todas as mulheres que “quebraram o silêncio e falaram sobre abuso e assédio”. A própria atriz contou anteriormente que foi assediada por um diretor quando tinha 16 anos.

“Essa série é mais sobre a vida que apresentamos ao mundo e que ela pode ser bem diferente por trás das portas fechadas. Por isso, quero agradecer a todos que quebraram o silêncio nesse ano e falaram sobre abuso e assédio. Vocês são corajosas e, com esperança, mais produções assim serão feitas, para que as pessoas que estão se sentindo silenciadas pelo assédio, discriminação, abuso… A hora chegou. Nós vemos vocês. Nós escutamos vocês e vamos contar suas histórias”.

Rachel Brosnahan foi a Melhor Atriz em Série de Comédia ou Musical, pelo seu trabalho em “The Marvelous Mrs. Maisel”. Em seu discurso, ela pediu para que mais histórias sobre mulheres fossem feitas em 2018. O seriado ainda levou Melhor Série de Comédia ou Musical, o que nos faz pensar que mulheres podem, sim, fazer comédia e serem bem sucedidas. Só é preciso mais espaço.

Allison Janey foi a Melhor Atriz Coadjuvante em Filme, por seu papel em “Eu, Tonya”. Aziz Ansari foi o Melhor Ator em Série de Comédia, tornando-se o primeiro homem de origem asiática a vencer na categoria.

Saoirse Ronan foi a Melhor Atriz em Filme de Comédia, com “Lady Bird: A Hora de Voar”. O longa também foi eleito Melhor Filme de Comédia ou Musical, desbancando “Corra!”, do diretor Jordan Peele. Foi a chance de Greta Gerwig subir ao palco e fazer um discurso emocionado.

Aliás, falando de Greta Gerwig, ela, Patty Jenkins e Dee Rees foram esnobadas no Globo de Ouro, mesmo fazendo filmes que fizeram sucesso de crítica e/ou bilheteria. Ava DuVernay foi a última mulher a ser indicada na categoria de Melhor Diretor, em 2015, com “Selma”. E até hoje, apenas uma mulher venceu na história do evento: Barbra Streisand, em 1984, com “Yentl”.

O fato de que apenas homens foram indicados não passou despercebido por Natalie Portman, uma das apresentadoras da categoria. Ao anunciar os nomes dos cineastas na disputa, ela fez questão de dizer: “estes são todos os homens indicados”. Os 5 diretores que concorriam não fizeram boas caras, o que significa que a fala de Natalie cumpriu seu papel: causar incômodo em quem possui privilégios.

Mas além dela, a própria Barbra Streisand também se manifestou na premiação. No palco para anunciar a Melhor Filme de Drama, a atriz e diretora disse: “nós precisamos de mais mulheres diretoras e mais mulheres sendo indicadas a Melhor Diretor. Há muitos filmes bons feitos por mulheres”.

Frances McDorman foi eleita a Melhor Atriz em Filme de Drama e também não poupou Hollywood. Ao final de seu discurso de agradecimento, ela disse que “as mulheres presentes não estão aqui pela comida. Estamos aqui pelo trabalho”. 

O Globo de Ouro teve momentos especiais, mas talvez nenhum supere o momento em que Oprah Winfrey recebeu o prêmio por sua carreira. Sendo a primeira mulher negra a ganhar a honraria, ela fez um discurso forte, no qual tocou no tópico da noite, o assédio sexual e abuso de poder, além de falar sobre racismo e o poder da representatividade.

“Em 1964, eu era uma menina sentada no piso de linóleo da casa da minha mãe. Eu via [a atriz] Anne Bancroft apresentar o Oscar de Melhor Ator. Ela abriu o envelope e disse 5 palavras que, literalmente, fizeram história: ‘o vencedor é Sidney Poitier’. O homem mais elegante que eu já vi foi ao palco. Eu nunca havia visto um homem negro ser aclamado daquele jeito”, começou Oprah. “Eu já tentei muitas vezes explicar o que um momento como esse significa para uma menina assistindo em assentos baratos, enquanto minha mãe chegava cansada de limpar as casas de outras pessoas”, continuou a apresentadora. “Eu não esqueço que há meninas assistindo enquanto eu sou a primeira mulher negra a receber esse prêmio”.

Em seguida, a apresentadora, atriz e produtora lembrou que a liberdade de imprensa está ameaçada nesses anos de governo Trump [o presidente acusa a imprensa de mentir constantemente a seu respeito]. 

“O que eu sei com certeza, é que falar a sua verdade é a ferramenta mais poderosa que nós temos”, disse, em referência às mulheres e homens que se manifestaram contra o assédio sexual em Hollywood e outras indústrias. “E eu estou orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram corajosas e fortes o bastante para compartilhar suas histórias. […] Por muito tempo, as mulheres não foram escutadas ou acreditadas por ousarem se manifestar contra o poder dos homens. Mas a hora deles chegou”. 

“Eu entrevistei e interpretei pessoas que suportaram coisas horríveis que a vida joga na gente, mas uma coisa que todas elas parecem ter em comum, é a habilidade em manter a esperança em um dias melhores, mesmo durante noites sombrias. Por isso, a todas as meninas assistindo agora, eu quero que saibam que um novo dia está no horizonte! E quando esse novo dia finalmente amanhecer, será por conta de tantas mulheres magníficas, muitas delas que estão aqui, e alguns homens fenomenais, que lutam duro para garantir que elas se tornem as líderes que nos levarão a uma época em que ninguém mais precisará dizer: ‘eu também'”.

Sem dúvida alguma, o Globo de Ouro foi das mulheres. A lista completa dos ganhadores está no site da premiação.


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