A L’Oréal Paris contratou esta modelo trans – e a demitiu após ela protestar contra o racismo

04. setembro 2017 Estilo 0
A L’Oréal Paris contratou esta modelo trans – e a demitiu após ela protestar contra o racismo

Na semana passada, a L’Oréal Paris começou uma nova campanha no Reino Unido, protagonizada por diferentes rostos, inclusive o da ativista trans britânica Munroe Bergdorf, que também é DJ e modelo. Segundo o site Refinery29, era a primeira vez que uma mulher trans participava de um dos projetos da marca na terra da rainha Elizabeth II.

Mas isso durou até sexta-feira passada (1), quando a empresa a demitiu após Munroe protestar contra o racismo nas redes sociais. O vídeo em que ela falava de si e o comercial em que apareciam foram todos deletados, pois os comentários da DJ estariam “na contramão” dos valores da L’Oréal.

Semanas antes de fazer parte da campanha de divulgação da linha de bases da marca, a ativista e DJ escreveu em seu Facebook que estava cansada de discutir racismo com pessoas brancas. Suas palavras diziam respeito às manifestações nazistas de Charlottesville, nos Estados Unidos, que terminaram com a morte de uma mulher que protestava contra a passeata.

O  post de Munroe foi apagado depois de ser denunciado na rede social, segundo reporta o site Mic, que teve acesso ao texto.

“Honestamente, eu não tenho mais energia para conversar sobre violência racial de pessoas brancas. Sim, de todas as pessoas brancas. Porque a maioria de vocês não percebem ou se recusam a reconhecer que sua existência, privilégio e sucesso enquanto raça foram construídos nas costas, sangue e morte de pessoas de cor. Toda a existência de vocês é encharcada de racismo. Desde micro-agressões até terrorismo, vocês são os culpados por essa merda. Venham falar comigo quando perceberem que o racismo não é ensinado, é herdade e, consciente ou inconscientemente, passado através do privilégio. Uma vez que pessoas brancas começarem a admitir que sua raça é a mais violenta e opressiva força da natureza na Terra, aí poderemos conversar”.

Com o post circulando na internet na semana passada, mesmo período em que a campanha da L’Oréal foi lançada, a empresa de cosméticos fez um tweet dizendo que Bergdorf não fazia mais parte da iniciativa. “A L’Oréal acredita na diversidade. Os comentários feitos por Munroe Bergdorf vão na contramão dos nossos valores e, por isso, decidimos terminar nossa parceria com ela”.

Ao site Mic, a empresa estendeu seu comunicado sobre o fim da colaboração com a modelo trans.

“Nós apoiamos a diversidade e a tolerância para todas pessoas, independente de raça, origem, gênero e religião. Nós acreditamos que os recentes comentários da porta-voz da L’Oréal Paris UK, Munroe Bergdorf, vai na contramão desses valores e, por isso, decidimos terminar a parceria com ela. A L’Oréal continua comprometida a celebrar a diversidade e a quebrar as barreiras de beleza”.

Já Munroe emitiu um comunicado, pedindo um boicote à marca.

“Sente-se e sorria em uma campanha que ‘acredita na diversidade’, mas não fale sobre o fato de que a falta de diversidade acontece por conta do racismo. Essa marca de maquiagem se importa apenas com dinheiro. Eu peço a vocês que boicotem a L’Oréal Paris. Eu não consigo expressar o quão decepcionada eu estou com toda a equipe ao lidar com frases mal colocadas e que estavam fora de contexto”.

É, de fato, decepcionante que a L’Oréal tenha demitido Bergdorf sem ao menos dar a chance a ela de esclarecer seu ponto de vista. Provavelmente visando os lucros, a empresa a cortou antes que começasse a perder seu público. Mas isso deixa uma dúvida no ar: ter uma mulher trans, ou qualquer pessoa que não esteja dentro dos padrões cisheternormativos, é permitido desde que questões sérias e que muito têm a ver com esses indivíduos fiquem longe da boca deles?

O boicote da ativista dificilmente terá muitos seguidores, mas é frustrante que a situação tenha escalado ao ponto de ter perdido seu trabalho. O racismo é um problema social sério, que impede que pessoas como Munroe Bergdorf, de prosperar. Alguém pode questionar que o linguajar utilizado por ela talvez não fosse o mais adequado. Mas, primeiramente, estamos falando de um comentário feito em um Facebook pessoal, que em nada tem a ver com o trabalho que ela realizou com a marca. Em segundo lugar, a L’Oréal sabia bem que estava contratando uma ativista. Se não queriam que ela manifestasse nenhum tipo de opinião, então, deveriam ter dito a ela como se joga o jogo das grandes corporações (e provavelmente, ela já deve saber).

O que fica, agora, é a impressão de que por mais bem-intencionada que a marca seja, a diversidade buscada não pode passar para a página dois. Sorria, mas não abra tanto a boca.


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