A forma como falamos sobre suicídio importa

05. Janeiro 2018 Internet 0
A forma como falamos sobre suicídio importa

Logo na primeira semana do ano, um tópico que deixa muita gente desconfortável virou assunto nas redes sociais: suicídio. Isso porque o youtuber Logan Paul fez um vídeo na floresta de Aokigahara, no Japão, conhecida por ser um local onde muitas pessoas tiram suas próprias vidas. Em seu vlog, o rapaz encontra um corpo pendurado em uma árvore e faz piadas sobre a situação.

Pouco tempo depois do vídeo ser divulgado, Logan foi criticado por tratar com brincadeira um tema tão sério. O youtuber retirou a produção do ar e fez dois pedidos de desculpas, em um deles dizendo que não esperava “ser perdoado”. Ambas as desculpas feitas por ele são mais uma tentativa de falar sobre seus sentimentos do que sobre o impacto de suas ações com seu público, o qual é majoritariamente composto por crianças e adolescentes. 

Mas um ponto chamou minha atenção: Paul afirmou que sua intenção era “criar conscientização sobre suicídio e prevenção ao suicídio”. Se esse era mesmo seu objetivo, claramente ele falhou. Mais importante do que falar sobre suicídio, é a forma como falamos sobre o assunto. 

É fundamental falar sobre o tema, visto que a ausência de um diálogo é um fator que impede que pessoas busquem a ajuda que precisam. Porém, o suicídio é um tema sensível e cheio de nuances que, se não for abordado da maneira correta, pode ‘romantizar’ o ato, em vez de afastar alguém de pensamentos suicidas.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma pessoa tira sua própria vida a cada 40 segundos no mundo. Somente em 2012, mais de 800 mil pessoas cometeram suicídio, sendo essa a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, o que compreende uma boa parte do público de Logan Paul. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, 30 pessoas se matam todos os dias. Houve um aumento de 12% no número de suicídios no país, que registrou 55.649 casos entre 2011 e 2015. 

E quando se leva em conta a população LGBT, os jovens têm 5 vezes mais chances de tirar suas próprias vidas do que jovens heterossexuais e cisgêneros. Num recorte envolvendo pessoas trans, 40% delas já tentaram se matar. Ou seja, temos um grave problema de saúde pública e que precisa ser discutido.

Todos os números citados mostram o quão comum o suicídio é, mesmo em uma sociedade que evita reconhecer o problema. A mídia tem um papel importante na difusão de informações e conscientização, mas dificilmente o faz de maneira inteligente, optando muitas vezes por uma linha irresponsável e problemática.

É o caso, por exemplo, do seriado “13 Reasons Why”, que embora tenha feito sucesso com o público, recebeu enormes críticas pela maneira como abordou doenças mentais e suicídio. Para muitas organizações que trabalham com essas causas, a série glamorizou um ato que é o último recurso de alguém em desespero. Apresentar imagens gráficas de alguém tirando sua vida a uma pessoa que já está em um estado emocional fragilizado, pode levá-la a considerar a atitude como uma ‘saída’ para o que está sentindo. E isso sem contar nos gatilhos emocionais que uma cena dessa pode despertar em quem já tentou se matar anteriormente.

E falando sobre o vídeo de Logan, ir a uma floresta com um histórico triste de pessoas que se mataram por lá, levando câmeras e filmando um corpo sem vida, é fazer um ‘circo’ sobre a morte, como se fosse um assunto para entretenimento. Se o objetivo era mesmo de conscientizar, havia maneiras melhores de fazê-lo, como oferecer meios de apoio a quem estiver passando por problemas ou conversar com um especialista em prevenção do suicídio. 

O suicídio é prevenível, pois a maioria dos casos está ligada à depressão, um transtorno mental que tem tratamento. Precisamos falar sobre suicídio, mas não da maneira que o youtuber se propôs a fazer.

E se você estiver precisando de ajuda, o Centro de Valorização à Vida (CVV) pode ajudá-lo através do site e do telefone 141. 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *