6 pensamentos que eu tive assistindo o novo “Power Rangers”

30. outubro 2017 Cinema 0
6 pensamentos que eu tive assistindo o novo “Power Rangers”

Uma das melhores lembranças que eu tenho da minha infância é assistir aos “Power Rangers” com os meus irmãos. Cada um de nós era um personagem e, assim como nossos super-heróis, nos uníamos para combater os vilões que criávamos na nossa imaginação (a quem possa interessar, eu era o Billy, o ranger azul).

Por isso, quando soube que fariam um filme dos “Power Rangers”, tive sentimentos mistos: enquanto eu não queria que mexessem em um clássico que eu adorava, também achei que era possível que o longa criasse novas possibilidades para as crianças de hoje e para os próprios personagens.

Demorei muito, mas finalmente assisti à obra do diretor Dean Israelite (“Projeto Almanaque”) e pensei em várias coisas enquanto via Kimberly (Naomi Scott), Trini (Becky G), Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cycler) e Zack (Ludi Lin) combatendo a perigosa Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Eis aqui 6 pensamentos que tive:

Elenco diverso:

Eu não consigo mais ver filmes sem reparar no elenco. Nesse mesmo final de semana, assisti “O Estranho Que Nós Amamos” e, embora tenha gostado mais do segundo, não consegui deixar de notar que ele possui um time de atores totalmente branco. Vale dizer que isso não tira os méritos do longa de Sofia Coppola, mas é um aspecto que não passa mais despercebido por muita gente.

Em “Power Rangers”, temos um cara branco (Jason – Montgomery), uma garota de descendência indiana (Kimberly – Scott), uma garota de descendência latina (Trini – Becky G), um rapaz negro (Billy – Cycler) e um garoto asiático (Zack – Lin). O quinteto ganha poderes especiais assim que encontram as moedas que permitem que se transformem nos famosos super-heróis. E, dessa maneira, mostram a muitas crianças e jovens por aí que eles também podem salvar o mundo com suas ideias e potenciais. 

O fato de que o longa não dependeu de um grupo de heróis brancos (assim como a série em que se baseia) vale ser destacado, pois Hollywood tem o hábito de criar narrativas inteiras em torno de homens brancos. Apenas neste ano tivemos o filme de uma super-heroína (“Mulher-Maravilha”) e, em breve, teremos uma produção da Marvel protagonizado por um herói negro (“Pantera Negra”). Estamos em 2017 e ainda dando esses pequenos passos. E como eles ainda são poucos e raros, eles precisam ser valorizados, pois é isso o que o público quer ver.

A mensagem de “Power Rangers”:

“Power Rangers” está longe de ser o melhor filme do ano, mas possui uma bonita mensagem. Diferente da série, a obra cinematográfica traz personagens com falhas e não modelos ideais de como um jovem deveria ser.

Apesar dos 5 personagens estarem cumprindo uma espécie de “detenção” juntos, eles não poderiam ser mais diferentes: Billy é autista, Trini possui problemas de relacionamento com a família e, ao que dá entender, é por conta de sua sexualidade, Kim perdeu suas amigas depois de divulgar uma imagem de uma delas sem consentimento, Zack é um garoto solitário que tem uma mãe doente e teme perdê-la, e Jason aprontou muito e tenta se reerguer. 

Isso tudo soa muito clichê, mas a verdade é que adolescência é complicada e Dean Israelite quer apresentar personagens com os quais os jovens de hoje possam se identificar. Eles não são perfeitos e são muito diferentes entre si. Porém, essas diferenças não são tratadas como coisas ruins. Aliás, quando finalmente entendem um ao outro e conhecem quem são, é aí que ganham seus poderes mágicos. Ao superarem seus conflitos e entenderem que juntos são mais fortes, os cinco estudantes conseguem salvar a Alameda dos Anjos e o mundo.

As roupas das garotas:

Os trajes dos novos “Power Rangers” não me conquistaram logo de início. Elas parecem uma versão colorida da armadura do “Homem de Ferro” e em nada se parecem com o figurino da década de 90. E tudo bem. O tempo passa e as coisas mudam. Por isso, as roupas do quinteto ganharam uma versão mais tecnológica e robótica. 

Quem fica esperando que os personagens apareçam fantasiados, talvez se frustre um pouco, já que leva um bom tempo de fita até que os cinco surjam vestindo as cores vermelho, amarelo, rosa, azul e preto. Mas quando isso finalmente acontece, é impossível não notar que as armaduras das meninas Trini e Kimberly tenham peitos e saltos. 

Por que diferenciar os Rangers entre meninos e meninas? No filme, é possível perceber que as armaduras surgem na pele dos personagens, o que até justifica os peitos nas garotas, mas ainda assim, a pergunta que fica é: por que essa diferenciação? O público podia muito bem saber quais eram os personagens femininos e masculinos apenas pelas cores, além do fato de que uma armadura com peitos não é lá muito prática para combate. Pior ainda com o acréscimo de um salto. 

Não é errado ser feminina (a ranger rosa da década de 90 usava uma saia), mas como escreveu Caroline Preece para o site Den of Geek, “não há nada de feminino numa armadura com peitos”.

A Rita Repulsa de Elizabeth Banks:

A vilã Rita Repulsa também foi adaptada para as telonas, dessa vez por Elizabeth Banks. A atriz é conhecida por ter feito papéis cômicos no cinema e fez uma personagem caricata da criatura maligna. É provável que essa tenha sido uma escolha consciente, afinal, estamos falando de um filme para crianças e que não tem a necessidade de se levar a sério demais.

Ainda assim, não é uma Rita que tenha caído tanto no meu gosto. E nem tanto pela atuação de Banks, mas por conta do traje da vilã, que ganhou uma versão sexualizada em 2017, com peitos, saltos e uma roupa colada ao seu corpo. Esse figurino também não parece o mais confortável e prático para lutar, porém, parece que é preciso fazer esses marcadores de gênero nas personagens femininas para que o público saiba identificar homens e mulheres. 

Eu não estou aqui para criticar a forma como uma mulher se apresenta. Isto é, não estou querendo fazer slut-shaming com Rita ou Elizabeth Banks. O que chamo a atenção aqui é para a forma como personagens femininas são frequentemente retratadas, especialmente quando são personagens que lutam, e precisam desse “toque” feminino e sexualizado para serem vistas. Na verdade, elas não precisam. Mas vá dizer isso a Hollywood.

Billy, o personagem com autismo:

Além de um grupo de personagens racialmente diverso, os novos “Power Rangers” possuem um membro com autismo. Billy, o ranger Azul, possui essa peculiaridade que o torna diferente dos amigos. Mas em vez de sua condição ser a piada, ela é entendida e respeitada pelos seus companheiros, os quais se unem como um time de verdade por conta dele. 

“O que era importante para nós, logo no início, foi fazer com que esse filme fosse diverso”, disse o diretor Dean Israelite ao site da Teen Vogue. “Diverso não apenas no que diz respeito à etnia, mas diverso em termos de representação de vozes. Nós queríamos um personagem feito o Billy, que celebrasse aquelas habilidades e manifestasse em um filme a ideia de que sem Billy e as qualidades que ele tem, a equipe nunca seria vitoriosa”.

E vale dizer: Billy é o personagem mais carismático e interessante do filme (eu adoraria conhecer mais a ranger amarela de Becky G também).

O filme é um bom passatempo:

Por fim, o filme dos “Power Rangers” não é nem de longe o melhor do ano. Ele mexe com a nostalgia de quem cresceu na década de 90 com os heróis multicoloridos, mas talvez não conquiste os corações dos fãs mais fiéis da série. O roteiro é um tanto bagunçado e sem um ritmo definido, a transformação dos cinco personagens leva tempo, as cenas de luta – especialmente fora dos zords – não é muito bem explorada e os efeitos especiais poderiam ser melhor trabalhados. 

Ainda assim, o longa é um bom passatempo, que faz a gente esquecer o mundo sério e cheio de problemas que vivemos, e diverte quando se propõe a divertir. O final permite que uma continuação seja pensada, o que seria legal se acontecesse (não vai). Se você quer um algo bem Sessão da Tarde para ver, você acaba de encontrar seu entretenimento.


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