4 lições que aprendemos com Caitlyn Jenner, Laverne Cox, Thammy Miranda e Viviany Beleboni

4 lições que aprendemos com Caitlyn Jenner, Laverne Cox, Thammy Miranda e Viviany Beleboni

Nos últimos anos, pessoas trans têm ganhado visibilidade na mídia. Figuras como a atriz Laverne Cox, a Sophia Burset do seriado “Orange Is The New Black”, tem ajudado a iniciar uma conversa com a sociedade sobre transgeneridade e a luta dessas pessoas por direitos e respeito. Quando Cox foi capa da edição de junho de 2014, da revista TIME, ela disse concordar com a jornalista e escritora Janet Mock (uma mulher trans), que esse é um novo tempo para pessoas trans. “Temos que ouvir as pessoas”, pediu. “Quando alguém precisa expressar seu gênero de forma diferente, tudo bem. Ela não deveria ter acesso médico negado, tampouco sofrer bullying. Essas pessoas não merecem ser vítimas da violência”.

Além da atriz, séries televisivas têm se mostrado mais inclusivas ao colocarem personagens trans em suas histórias. É o caso de “Glee”, “Transparent” e “Sense8”por exemplo. Caitlyn Jenner também tem mostrado ao mundo sua transição, ao mesmo tempo em que usa sua plataforma para chamar atenção à causa. Além dessas mulheres, aqui no Brasil, Thammy Miranda, filho de Gretchen, também tem sido uma voz importante dentro do movimento no país. A atriz trans Viviany Beleboni, conhecida por ter sido pregada numa cruz na Parada do Orgulho LGBT deste ano, tem denunciado a violência a qual pessoas trans são submetidas no cotidiano.

Claro que há ativistas atuando muito antes dessas pessoas, mas o fato de estarem no olho da mídia não só encoraja jovens a terem coragem para serem quem são, como ajudam a atrair uma atenção maior a causas que podem estar distantes do grande público.

E aqui vão quatro lições importantes que aprendemos com Laverne Cox, Caitlyn Jenner, Viviany Beleboni e Thammy Miranda:

Pronomes e artigos são importantes:

Pode não parecer, mas palavras têm poder e podem machucar. Essa é uma violência simbólica que pessoas trans enfrentam pela população e pela mídia. Quando viram notícia – em geral, quando morrem -, muitos jornais referem-se a travestis por “o travesti” ou utilizam o pronome “ele”. E mesmo quando vivas e famosas, elas ainda não recebem o devido tratamento.

5 lições que aprendemos com Caitlyn Jenner, Laverne Cox, Thammy Miranda e Viviany Beleboni

Em outro exemplo, como a Revista Fórum nota, a mídia brasileira insiste em tratar Thammy Miranda pelo feminino, mesmo tendo declarado que é um homem. Jô Soares foi um dos poucos a tratarem Thammy (ou Thommy), pelo gênero com o qual se identifica, o masculino. “Não tem mais jeito [de tratar no feminino]. Você é um homenzinho. Já nasceu um homem”, disse o apresentador na entrevista com Thammy que foi ao ar no dia 24 de julho.

Artigos, pronomes e nomes importam. Usá-los corretamente é demonstrar respeito àquela pessoa. Não use o nome dado a elas ao nascimento, utilize o nome social.

Toda beleza deve ser reconhecida:

Após Caitlyn Jenner ser capa da revista Vanity Fair, muitos elogiaram a aparência da ex-atleta, e sua capacidade de enquadrar-se no padrão de beleza cisgênero. No entanto, como nota Laverne Cox, muitas pessoas trans não podem fazer o mesmo, porque não possuem recursos para isso, assim como muitas delas não o querem. “É importante notar que esses padrões são feitos por raça, classe e habilidade, entre outras intersecções”, escreve a atriz. “Muitas pessoas trans não possuem os privilégios que eu e Caitlyn temos agora. São essas pessoas que nós devemos continuar a levantar, e conseguir acesso ao sistema de saúde para elas, empregos, moradia, ruas e escolas seguras e casas para nossa geração mais jovem”.

Após o texto de Laverne, várias pessoas trans foram ao Tumblr postar fotos suas em um template da revista Vanity Fair, a fim de destacar a beleza de pessoas que não seriam capa da publicação por não seguirem o padrão de beleza cisgênero. Com a hashtag ‘My Vanity Fair Cover’ (‘Minha Capa da Vanity Fair’), as amigas Crystal Frasier e Jenn Dolarim iniciaram um movimento com grande adesão nas redes sociais. “Acho que estamos todos felizes que Caitlyn esteja feliz. Isso não é, de forma alguma, uma crítica, à sua vida ou escolhas, mas esse é um ótimo momento para lembrar as pessoas – especialmente as crianças trans que podem pegar uma mensagem de que o valor delas é baseado em suas habilidades de parecerem brancas e cisnormartivas. Pessoas trans são variadas e todas nós merecemos amor, atenção e entendimento”, contou Crystal ao Buzzfeed.

“Eu me senti frustrada, inútil e confusa com as opiniões sobre as mulheres transgênero e como nós ‘deveríamos’ parecer se quisermos ser levadas a sério. Mas nem todas nós aderimos a esses padrões. Nem todas queremos. Nem todas podem. Algumas sim, mas somente por causa do medo. Algumas de nós sim, mas nem sabemos por quê. E se nos encaixamos nesses padrões ou não, somos lindas e todas merecemos nos sentir lindas e reconhecidas pelo mundo”. (Crystal Frasier)

http://naidje.tumblr.com/post/120634486394/call-me-nadia-im-a-28-year-old-pansexual

Representatividade importa:

Tweet: “Penso nas crianças como Leelah Alcorn, que só queriam estar aqui para ver a capa da Caitlyn Jenner para a Vanity Fair”.

Leelah Alcorn foi uma jovem transgênero que cometeu suicídio após seus pais a forçarem a frequentar “terapia de conversão”. Em um texto escrito em seu Tumblr, ela pede o fim da transfobia. “Minha morte precisa significar algo. Minha morte precisa ser adicionada ao número de pessoas trans que cometem suicídio. Quero que alguém olhe esses números  e diga ‘isso está errado’ e conserte isso. Conserte a sociedade. Por favor”.

A morte de Leelah levou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a pedir o fim das terapias de conversão no país. Estima-se que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio. Isso não pode mais acontecer.

É preciso mudarmos a forma como tratamos pessoas trans. Ter pessoas como Caitlyn Jenner ou Laverne Cox, duas mulheres trans bem sucedidas, é dar alento e esperança a tantas crianças e jovens trans, que não possuem perspectivas. Obviamente, representatividade precisa acompanhar políticas públicas que amparem e protejam essas pessoas, mas quando essas celebridades usam suas plataformas para passar uma mensagem, reivindicando direitos ou transmitindo encorajamento, muita coisa pode mudar.

“Eu continuarei aprendendo, farei o que for possível para mudar a forma como as questões de pessoas trans são vistas e como essas pessoas são tratadas. E indo além, promover uma simples ideia: aceitar as pessoas como elas são”. (Caitlyn Jenner)

É preciso criminalizar a transfobia:

Após a Parada do Orgulho LGBT deste ano, a modelo e atriz Viviany Beleboni, que representou Jesus pregado na cruz, recebeu várias ameaças de morte. No último sábado, 8, ela foi atacada por dois rapazes, que a cortaram e a agrediram. “‘Você é um demônio, tem de morrer. Esses pastores estão certos'”, relata Viviany.

Por pouco a atriz não adiantou em 4 anos a expectativa de vida de uma pessoa trans, que é de 30 anos, de acordo com a Associação Nacional das Travestis e Transexuais (Antra). Para comparação, a expectativa de vida do restante da população brasileira é de 73 anos. A mesma associação estima que 90% das travestis e transexuais estejam se prostituindo no Brasil. Nosso país também lidera o ranking mundial por mortes dessas pessoas. Os números alarmantes provam a necessidade de criminalizarmos a transfobia e criar mecanismos que façam a inclusão de pessoas trans na sociedade, como o Programa Transcidadania, da prefeitura de São Paulo, que dá bolsas de R$ 840 para travestis e transexuais voltarem a estudar.

Com certeza, temos ainda muito para aprender sobre pessoas transgênero, mas Caitlyn Jenner, Viviany Beleboni, Laverne Cox e Thammy Miranda já deram grandes lições para todos nós. O Catraca Livre também elaborou um manual para com 14 dicas para não ser transfóbico. Vale a leitura.

Uma sociedade melhor para todo mundo começa individualmente, a partir do exercício da empatia e do respeito. Vamos juntos?