Se algo deu certo na segunda temporada de “13 Reasons Why”, foi a narrativa da Jessica

Se algo deu certo na segunda temporada de “13 Reasons Why”, foi a narrativa da Jessica

[AVISO: ESTE POST PODE DISPARAR GATILHOS SOBRE ESTUPRO  E CONTÉM SPOILERS DE “13 REASONS WHY”]

As fitas eram mesmo só o começo em “13 Reasons Why”. Na segunda temporada, a atração deixou de focar no suicídio, para abordar o abuso sexual, uma violência ainda muito comum, principalmente, contra as mulheres. No primeiro ano do seriado, soubemos que Hannah (Katherine Langford) e Jessica (Alisha Boe) foram estupradas por Bryce (Justin Prentice) e, enquanto a primeira tira sua própria vida, a segunda tenta buscar meios de seguir sua vida depois do abuso que sofreu.

E nessa segunda temporada, a narrativa de Jessica é mais explorada, mostrando como é difícil para uma sobrevivente voltar a viver uma vida normal. Logo no começo, vemos que Jessica tem dificuldade para se ajustar na escola, graças aos seus colegas que parecem acreditar que ela transou com Bryce em vez de ter sido estuprada. Eles riem dela, apontam dedos e ainda fazem cartazes chamando-a de vagabunda. É um verdadeiro inferno, que fica pior por não ter alguém para contar o que de fato aconteceu. Alex (Miles Heizer) também está se recuperando, depois de uma tentativa de suicídio, e é um ombro amigo e familiar para Jess. Infelizmente, ele não consegue entender tão bem o sofrimento dela.

Quem a entende é Nina (Samantha Logan) com a qual comparece às sessões de terapia em grupo para sobreviventes de estupro. Nina também foi estuprada por Bryce (e no decorrer da segunda temporada, descobrimos que o time de baseball sabia da violência e nada fazia para impedi-la ou para denunciar o agressor) e, por isso, entende bem a nova amiga. Juntas, elas tentam aprender como curar a dor que vivenciaram e que ainda permanece na vida delas. 

Nesses 13 episódios de “13RW”, temos Jessica ponderando e aprendendo como vai se curar, já que isso é muito individual. Nina, por exemplo, por mais que frequente o grupo de terapia coletiva, prefere não contar a ninguém que foi estuprada, pois não quer que essa violência defina quem ela é. Isto é, ela não quer ficar “marcada” e que as outras pessoas mudem a forma como a tratam, uma vez que o estupro não muda apenas a pessoa que o sofreu, mas altera a forma como os outros a veem e a lidam com ela. As relações mudam e, para muitas vítimas, isso pode ser algo doloroso, pois ela mesma não quer se ver como vítima. Em busca de conforto e um ambiente em que possam ser elas mesmas, muitas pessoas preferem ocultar o que viveram. Dessa maneira, as coisas podem permanecer relativamente iguais.

Eventualmente, essa recusa de Nina acaba pesando para ela. Porém, essa é uma jornada dela, e o seriado deixa claro que cada sobrevivente tem o seu direito de aprender como vai lidar com seu trauma, mesmo quando isso vá contra o que se espera delas. Clay, por exemplo (Dylan Minnette), fica enfurecido por Jessica não querer testemunhar e dizer que foi Bryce quem a estuprou, e espalha para toda a escola as fitas de Hannah. Esse ato de raiva dele acaba por deixar sua amiga nervosa – e com razão. Ao divulgar para o mundo que Bryce a estuprou, Clay tira a autonomia de Jessica em contar sua própria história no momento em que ela acharia mais apropriado e como ela gostaria de fazer isso. Por mais que queira ver o estuprador atrás das grades (e todos nós queríamos isso), o menino não tinha o direito de expôr Jessica daquela maneira.

E isso porque nomear Bryce como o estuprador e revelar que, sim, ela foi mesmo vítima de estupro, pode mudar a vida da garota de uma maneira que ela poderia não estar preparada. Veja bem, quando vítimas de estupro contam que foram estupradas, dificilmente elas serão acreditadas. Uma vez revelado que a agressão aconteceu, tudo fica diferente, como dito anteriormente. Não só as relações com as pessoas mudam, mas espera-se que a pessoa também tenha um padrão de comportamento, para que seja uma espécie de “vítima perfeita”. Essa é outra violência, pois depois de denunciar, ela não pode mais voltar a viver como antes, mas precisa viver sempre consciente de que tudo será vigiado e que qualquer coisa será usado como prova contra ela.

Basta ver o slut-shaming ao qual Hannah Baker foi submetida durante o tribunal. Tanto a acusação quanto os estudantes que testemunharam disseram mentiras sobre ela e a fizeram parecer que, a todo instante, ela queria ser desejada pelos rapazes, principalmente por Bryce, um menino rico e líder da equipe de baseball. Quem não gostaria de sair com ele? Hannah com certeza queria. E foi isso o que a advogada da escola tentou provar no processo que os pais da menina moveram contra a instituição. A garota que se suicidou não era a vítima perfeita e, por isso, ninguém deveria acreditar nela. E, por fim, o colégio foi absolvido pelo júri.

E se não acreditaram em Hannah, que deixou fitas contando tudo o que viveu, quem acreditaria em Jessica? Era a palavra dela contra de um garoto que manda na escola e cujos pais têm dinheiro o suficiente para comprar o silêncio de todos. Por se tratar de uma pessoa influente e poderosa (e estupro tem sempre a ver com a relação de poder de uma pessoa sobre a outra), a menina evitou desafiá-lo. E além disso, ela buscou se preservar. Não dar “o nome aos bois” poderia permitir que, de certa maneira, pudesse viver em paz sem ninguém apontar os dedos para ela e não ser julgada.

Foi bonito ver que, posteriormente, Jessica toma a coragem necessária para denunciar formalmente seu agressor e buscar justiça. No geral, poucas vítimas fazem uma denúncia, o que torna o estupro um tipo de violência muito subnotificado, resultando também em poucas prisões. Em todos os episódios, acompanhamos a menina aprendendo a lidar e entender o que lhe aconteceu, sua busca por cura e justiça, fazendo tudo de acordo com o que acredita ser melhor para ela. Mesmo que Bryce tenha sido preso por apenas 3 meses, para ela, foi como se aquele capítulo de sua vida estivesse encerrado.

Ela provavelmente vai continuar buscando uma maneira de seguir em frente e a lutar com a sua dor, mas é muito positivo vê-la reconquistando sua autonomia e liberdade. “13 Reasons Why” errou em muitas coisas, mas ao menos deu uma perspectiva construtiva para abuso sexual que poucos seriados fazem. E embora uma terceira temporada não seja necessária, vamos aguardar para ver o que o futuro reserva para Jessica. E tomara que seja algo bom.